Uma semana após distúrbios londrinos, bairro tenta se reconstruir

Funcionários consertam asfalto de avenida em Tottenham (BBC)
Image caption Avenida de Tottenham foi danificada pelo incêndio de um ônibus

As cicatrizes deixadas pela violência são visíveis nos prédios incendiados e nas lojas destruídas no bairro de Tottenham, onde começou a onda de distúrbios em Londres.

Mas, passada uma semana desde o primeiro dia de confrontos, enquanto máquinas consertam o asfalto danificado por um ônibus em chamas, ficam claros os esforços e a determinação para reconstruir a comunidade.

A atitude é resumida por Barbara, de 72 anos, que morou toda a sua vida em Tottenham: “Ninguém está deprimido. Que escolha temos, a não ser tentar fazer o melhor possível?”

Ela está entre os membros da igreja St Mary the Virgin, que fica a poucos metros de uma loja destruída pelos saques e que abriu na manhã seguinte ao primeiro dia de violência para prover refúgio a bombeiros. Ali perto, cartazes anunciam a realização de uma marcha pela paz.

Agora, a igreja está servindo os trabalhadores da construção civil local com chá, sanduíches e bolo.

‘Comunidade boa’

Image caption Moradores estão promovendo uma marcha pela paz

Barbara diz ver com otimismo a atmosfera do bairro.

“Percebi, caminhando na rua, que pessoas geralmente ocupadas agora dizendo ‘bom dia’ enquanto passam”, contou. “É uma pena o que aconteceu em Tottenham, mas nos recuperaremos. É uma boa comunidade.”

O sentimento é compartilhado por um dos policiais que patrulham uma das ruas interditadas do bairro. Ele disse que, em geral, a população agradeceu a maior presença policial.

Os distúrbios londrinos começaram depois que a polícia matou Mark Duggan, de 29 anos, em Tottenham, morte esta seguida de um protesto pacífico diante da delegacia local.

O policial consultado pela BBC no bairro diz, com cautela, que a atmosfera em Londres pós-onda de violência é menos tensa. “Antes, você percebia que as coisas iam mal.”

Todas as folgas policiais estão canceladas até a próxima terça. Até lá, o policial terá trabalhado 16 dias consecutivos. “Em geral, a população não costuma dizer coisas boas sobre os policiais. Mas, num momento em que têm medo, as pessoas apreciam a (ação da) polícia.”

Negócios abalados

O empreendimento Thompson’s Seafoods, que existe há 22 anos em Tottenham, teve de ser fechado por conta do perímetro de isolamento imposto pelos policiais.

O funcionário James Pledger disse que os lucros estão dois terços menores do que em épocas normais, mas que ele se considera “sortudo” pelo fato de o comércio onde trabalha não ter sido destruído.

“As pessoas ainda estão um pouco temerosas de voltar às ruas, mas é preciso seguir em frente. Não podemos deixar que eles (agressores) nos abalem”, disse Pledger.

Bob Thompson, dono do negócio, defende o bairro de Tottenham.

“Há 47 nacionalidades aqui; nunca havíamos tido problemas”, declarou. “É uma pena. Todos pareciam felizes na tarde de sábado (passado). Daí acordei no domingo, liguei a TV e pensei que estava na Irlanda do Norte (geralmente associada a conflitos sectários na Grã-Bretanha). Fiquei chocado ao ver que era Tottenham.”

Ele recomenda que seus vizinhos “relaxem e tentem voltar à vida normal. Esteve tudo bem pelos últimos 20 anos.”

Direito de imagem Reuters
Image caption Loja de tapetes foi um dos negócios destruídos em Tottenham

Mark St-Clair, de 37 anos, mora em frente a uma loja de tapetes completamente destruída nos distúrbios.

Ele estava viajando quando a onda de violência se desencadeou, mas sua companheira e dois filhos estavam em casa, “com as malas prontas” para partir por terem percebido a presença de delinquentes diante de sua porta.

Apesar do trauma, ele se diz otimista quanto ao futuro. Inclusive se casou na última quinta-feira na igreja de St Mary, em uma cerimônia um pouco afetada pelas circunstâncias.

“A rua estava bloqueada, então tivemos que dar uma volta (para chegar). E muitas pessoas com quem trabalho ficaram com medo de vir”, disse.

“É terrível que (a violência) tenha escalonado a partir de um protesto pacífico – as pessoas se aproveitaram disso e decidiram fazer o que veio na cabeça.”

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