Ivan Lessa: Brazucas na baderna?

Recebo de um amigo mal informado um e-mail de Fort Lauderdale, na Flórida, perguntando se estou bem, se minha casa e meu bairro sofreram avarias, sérias ou não, durante a rodada de distúrbios que, semana passada, varreram Londres, Manchester, Birmingham e outras cidade e condados do país.

São boas as intenções de meu caro amigo, mas sou obrigado, sem querer, a participar de uma mesa-redonda ou depor numa comissão de inquérito a respeito dos infaustos acontecimentos que rodaram o mundo.

Não é bem o que eu queria. Quero distância dessas folias, tanto as do quebra-quebra, queima-queima, saqueia-saqueia, quanto às tentativas vãs de apurar suas causas e, com muita verba e má vontade, aplicar um band-aid na dolorosa questão que, assim dizem, é de fundo social.

Pessimista que sou, não acredito que haja solução alguma. O homem é o maior inimigo do homem. Ou, adaptando o azulejo para os fatos, os garotos são os maiores inimigos dos garotos.

Uma coisa garanto: tem gente demais nesta ilha estreita e apertada. Só podia – como voltará a dar – em besteira.

Outro amigo, aqui em Londres, me liga para perguntar se eu vi uma foto nítida de um brasileiro entre as milhares de fotos de baderneiros que a polícia vem diligentemente tentando identificar, via modernos métodos informáticos, para poder processá-los ou, na melhor das hipóteses, dar-lhes um puxão de orelhas, já que ninguém quer passar por xenófobo quanto mais racista.

Não vi. Ou não tinha visto. Mas acabei vendo, já que os telejornais não param de remoer este doloroso princípio de agosto que o país sofreu.

Lá estava um moço, branco, de camisa colorida com as cores do Brasil. Ocorreu-me a possibilidade de ser um pilantra inglês mesmo, infelizmente apreciador de nosso futebol, uma vez que camisas com os nomes de Ronaldo ou Romário são comuns.

Sou otimista e, com o adiantado da hora em que vivo, vou chegando-me, cada vez mais, assim como quem não quer nada, ao ufanismo de quem se mandou há décadas para a diáspora.

Ponderei com o amigo no telefone. Ele disse, sem muita convicção, que era capaz. Nossa colônia é de boa paz, insisti, e, caso de polícia mesmo, só o do Jean-Charles de Menezes, que levou sete balas na cabeça num vagão de metrô por ter, segundo um tabloide de Rupert Murdoch, corrido (Why Did He Run?, perguntava em letras garrafais o The Sun na ocasião).

Por coincidência, de outra fonte, recebo um e-mail do GBE, um grupo de estudos e pesquisas de brasileiros no exterior, dando os resultados de uma sondagem feita entre junho e setembro do ano passado. Foram disponibilizados em dois formatos, impresso e eletrônico, em estabelecimentos comerciais, igrejas e instituições que servem a nossa comunidade em Londres, principalmente nos bairros onde estão presentes concentrações mais numerosas de brasileiros: Willesden (morei lá), Harlesden e Seven Sisters.

O levantamento produziu uma amostragem de 553 questionários, 294 impressos e 259 em formato eletrônico. Mais mulheres do que homens responderam: 59% a 41%. A idade dos questionados variava entre os 25 e os 39 anos. Mais alguns dados interessantes:

- A proveniência dos brasileiros em Londres é de 20 das nossas 27 unidades federativas, sendo que Estados da região sul e sudeste contribuíram com os maiores contingentes, principalmente São Paulo.

- Minas e Paraná também contribuíram com consideráveis parcelas, e também o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro. São responsáveis por mais de metade dos brasileiros e brasileiras pesquisados.

- Quase três quartos dos questionados cursaram o ensino superior, 535 concluíram o curso de graduação. Uma pequena minoria de 3,6% declarou ter cursado somente o primeiro grau.

- Os resultados do levantamento revelaram uma ampla gama de disciplinas cursadas no exterior: cerca de 60 cursos de graduação foram citados, tais como Análise de Sistemas, Biomedicina, Comércio Exterior, Desenho Industrial, Economia, Fonoaudiologia, Hotelaria, Informática, Literatura, Medicina, Nutrição, Odontologia, Política, Química, Relações e Teatro. 86% dos que participaram do estudo exerciam atividade remunerada na capital londrina. Os que declararam não estar trabalhando eram donas de casa, estudantes ou, ainda, desempregados à procura de trabalho. Nada mau.

Diante desses dados, por tudo mais do que fidedignos, afirmo no escuro, e no claro também, que não teve – mesmo – pilantra brasileiro pilhando, tacando fogo, ou atacando policial. De qualquer faixa etária.

O rapaz com a camisa da seleção brasileira, caso estrangeiro, só pode ser polonês, digo de birra, porque um bombeiro dessa nacionalidade andou me passando a perna num trabalho aqui em casa. Um critério tão válido quanto o de uma comissão parlamentar de inquérito.