O quão perigoso é comemorar com tiros para o alto?

BBC
Image caption Morador da capital líbia atira para o alto para celebrar chegada de rebeldes: prática perigosa.

Rebeldes líbios celebraram sua chegada a Trípoli com tiros disparados para o alto. O quão perigoso isso é?

Trata-se, sem dúvida, de uma forma enfática de demonstrar alegria - como mostraram cenas gravadas na Praça Verde de Trípoli.

Disparar para o alto com uma arma automática é uma forma de comemoração popular em várias partes do mundo. Mas se trata também de uma atividade potencialmente letal, que quase sempre termina com a morte de transeuntes.

"Essas balas vão muito alto quando são disparadas", diz o especialista em balística David Dyson. "Mas não se sabe onde elas vão aterrissar, há sempre uma chance de que cause ferimentos graves ou morte".

Exemplos de mortes causadas por esse tipo de celebração não faltam. Três pessoas morreram nas Filipinas atingidas por balas perdidas, disparadas para comemorar a chegada do Ano Novo em 2011, por exemplo.

Em 2010, um noivo turco matou três parentes quando atirou para o alto com seu fuzil AK-47, em seu próprio casamento. No mesmo ano, o rei Abdullah II da Jordânia ordenou repressão à prática em seu país, depois que duas pessoas morreram e mais de 13 ficaram feridas em um só incidente do gênero.

Velocidade

Quando a seleção de futebol do Iraque derrotou o Vietnã na Copa da Ásia em 2007, três pessoas foram mortas em Bagdá, quando vários torcedores dispararam para o alto para comemorar. No Kuwait, tiros para o alto disparados ao fim da Guerra do Golfo, em 1991, foram a causa de 20 mortes.

A prática não está restrita à Ásia ou ao Oriente Médio. Um estudo dos EUA revelou que 118 pessoas foram tratadas por "ferimentos causados por balas caídas" em um centro de Los Angeles entre 1985 e 1992- e os ferimentos resultaram na morte de 38 pessoas.

O governo da Macedônia, por exemplo, mandou fazer um poster com o slogan "Balas não são cartões comemorativos - celebrem sem armas". Em 2005, autoridades sérvias, por sua vez, lembraram seus cidadãos antes do Ano Novo de que "cada bala disparada para o alto tem que cair".

Estudos sugerem que a velocidade da bala em queda é menor do que a de quando ela foi disparada, mas ainda assim é suficiente para ser fatal.

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Image caption Grupo rebelde comemora, armado, entrada em Trípoli

De acordo com um estudo de 1962, uma bala de calibre .30 pode atingir velocidade de 92 metros por segundo quando cai. Pesquisas mais recentes indicam que 61 metros por segundo é velocidade suficiente para penetrar um crânio.

Em consequência, vários estados dos EUA, incluindo Califórnia, Texas, Arizona e Ohio, proibiram disparos para o alto. Em Minnesota, o ato é especificamente proibido em cemitérios.

O professor Peter Squires, especialista em crimes com armas de fogo e cultura de armas da Universidade de Brighton, na Inglaterra, diz ser possível que a prática derive de premissas culturais, que ligam armas à masculinidade e ao ego.