Relação com a Líbia está acima de governos, diz embaixador brasileiro

Rebeldes dentro do quartel-general de Khadafi em Trípoli Direito de imagem AP
Image caption Contato com rebeldes ficou a cargo do embaixador brasileiro no Cairo

O Brasil teria recebido do Conselho Nacional de Transição (CNT), o organismo representante dos rebeldes líbios, a indicação de que os contratos das empresas brasileiras na Líbia devem ser respeitados e que as relações entre os dois países devem continuar boas após a possível oficialização da queda do regime do coronel Muamar Khadafi.

A informação é do embaixador brasileiro no Cairo, Cesario Melantonio Neto, encarregado pelo governo brasileiro de manter contatos com os rebeldes líbios. Melantonio Neto esteve reunido com o presidente do CNT, Mustafa Abdul Jalil, no final de julho em Benghazi e diz vir mantendo contatos regulares com membros do conselho desde então.

"Eles me disseram que têm um ótimo conceito das empresas brasileiras e que querem que elas continuem no país", afirmou o embaixador à BBC Brasil, por telefone, do Cairo. "A reputação das empresas brasileiras é boa tanto por conta da qualidade dos serviços quanto pelo comportamento dos funcionários', disse.

Melantonio Neto negou as afirmações divulgadas no início da semana de que empresas de países como Brasil, China e Rússia poderiam ser preteridas e substituídas por empresas de países ocidentais que apoiaram a missão da Otan para proteger os civis da repressão pelo regime líbio.

"As declarações divulgadas por agências de notícias internacionais foram feitas por um funcionário de baixo escalão de uma empresa petrolífera e já foram desmentidas pelo conselho", observa.

O Brasil foi contra a resolução da ONU que estabeleceu uma zona de exclusão aérea na Líbia e autorizou a ação da Otan no início do conflito, em março. Ao contrário de outros países, o Brasil também não reconheceu ainda o CNT como governo de fato da Líbia.

Na avaliação do embaixador, porém, as relações entre os dois países devem se manter cordiais por conta dos interesses mútuos, como na questão da segurança alimentar.

Segundo ele, a Líbia e os países árabes em geral, por conta do terreno árido e pouco fértil, são importadores estruturais de alimentos e se beneficiam da relação com o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de produtos agrícolas.

"As relações são de interesse dos países, estão acima de governos", afirma.

Prioridades

Antes do início dos conflitos na Líbia, havia quatro empresas brasileiras com operações no país: Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Petrobras. Elas empregavam centenas de brasileiros e estrangeiros, que foram retirados do país após a intensificação dos combates.

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Image caption Para Melantonio Neto, empresas de construção civil terão mais facilidade para voltar à Líbia

Segundo Melantonio Neto, o maquinário das empresas ficou sob a guarda de empregados líbios e estaria em segurança.

O embaixador avalia que das quatro empresas brasileiras na Líbia, as três empreiteiras são as que têm as maiores chances de retomar as atividades rapidamente. "Elas são responsáveis por obras de construção civil, de infraestrutura, como estradas, redes de esgoto, ramais rodoviários, que já haviam sido iniciadas e que são de grande interesse à população", observa.

No caso da Petrobras, no entanto, ele vê mais dificuldades - não pelo fato de ser uma empresa brasileira, mas por ser uma empresa do setor de energia, área considerada estratégica e que pode passar por alterações com a mudança do regime.

De qualquer maneira, o embaixador considera que a retomada dos contratos não estará entre as prioridades do CNT após a consolidação de seu poder sobre o país.

"A primeira prioridade será a segurança e depois o restabelecimento dos serviços básicos que foram afetados pelo conflito. Depois disso, precisarão estabelecer o arcabouço institucional do país, com eleições, uma nova Constituição. Só depois vão pensar nos contratos, e isso pode levar meses", afirma.