Lucas Mendes: Tédio no terremoto

Perdi o terremoto de 2011 em Nova York e vou perder o do próximo século, mas não vou sentir falta.

Passei por terremotos na América Central. Um dos melhores foi durante um jogo de tênis. A quadra ondulava em câmera lenta. Os postes de luzes balançavam, prá lá e prá cá, em completo silêncio, sem pressa. Sinistro. Despedi do parceiro e fui trabalhar.

Em Manhattan, às 13h51 desta terça, eu estava na sala de um hotel na rua 57, perto do rio Hudson, com quase 50 pessoas. Nada balançou, mas em poucos minutos uma dúzia de telefones celulares começaram a tocar quase ao mesmo tempo, todos com chamadas diferentes: rock, sinos, piano, blues, grilos.

As pessoas, com se estivessem num cinema, desligaram os fones e se desculparam. Algumas atenderam mas ninguém estava do outro lado.

Dois amigos estavam na cozinha de uma empresa. O que estava em pé, no micro-ondas, não sentiu nada. A que estava sentada estressou: "Na primeira tremida achei que tivesse batido com o pé na mesa. Na segunda entrei em pânico e saí às carreiras. Al-Qaeda ou terremoto?

Minha ex-mulher estava no elevador e não sentiu nada, mas quando chegou no lobby o assunto era o tremor.

Minha enteada, que estava perto das torres no 11 de setembro, desceu 40 andares depois da primeira tremida, certa que era um novo atentado. Na rua, depois de quase meia hora, acreditou que era só um terremoto. Um alívio.

Minha casa que tem 160 anos, e acho que vai cair com um reverberações de um caminhão mais pesado, não sentiu nada.

Eu raramente me deixo entendiar, mas tive um dos dias mais entendiantes dos últimos dez anos e falo com precisão porque o outro choque de tédio brutal foi exatamente há dez anos.

De dez em dez anos sou flagrado pela polícia de trânsito.

Aqui, como aí, quando você recebe uma multa com o carro em movimento - velocidade, sinal vermelho, etc ..., recebe, além da multona, os pontos na carteira e a opção de removê-los com um curso que vai de nove às quatro da tarde. Ninguém aprende nada de novo mas sai de lá "vacinado". Eu juro que vou respeitar todas as leis de trânsito. O choque do tédio funciona.

O professor contou que era um radialista fracassado. Acho que ele tentou, e fracassou, foi como comediante, mas não desistiu de uma plateia.

Gordo e suado contava uma piada, ninguém ria, repetia com mais detalhes. À certa altura ele pegou um carrinho de brinquedo, passou em cima da tela da televisão e continuou até entrar num armário de onde saiu depois de um tempão e voltou com o brinquedo para a tela de televisão.

Falava uns vinte minutos e depois rodava um vídeo. Metade da sala cochilava, a outra metade bocejava. Cheguei a pensar em deitar no tapete, no fundo da sala. Durante um dos filmes o professor foi flagrado numa cochilada na poltrona do corredor. Foi meu primeiro professor que dormiu durante uma aula.

Dois alunos prolongavam a tortura. Um deles queria contar as próprias desventuras nas estradas e irritou o professor quando disse que usava os dois pés para dirigir o carro automático .

"Deixe seu pé esquerdo no porta malas", disse impaciente o professor na única boa piada do dia.

Outro aluno, um músico clássico, conseguiu tirar o sono da sala com uma associação extraordinária: "Uma estrada é como uma orquestra sinfônica. Se um motorista anda mais devagar ou mais depressa que os outros, todos motoristas perdem o ritmo". Silêncio profundo. Senti um dó maior pelo professor.

Eu disse que ninguém aprende nada nesta reabilitação mas não é verdade. Com seus milhões de carros e milhões de motoristas, o número de americanos mortos nas estradas é menor do que no Brasil, e nenhum país tem menos acidentes por quilômetros rodados.

Nas estradas de Minas eu vejo mais acidentes em um dia do que vejo em um ano nos Estados Unidos. Quem sabe o choque de tédio destas aulas funcionam?

Infelizmente, a reabilitação, como prova minha outra aula há dez anos, não é definitiva. Escolhi um curso, por conveniência, mais perto da minha casa, em Chinatown. O professor falava e depois vinha o intérprete com a versão em chinês. Um terremoto seria uma benção.