Autoridade síria diz que renuncia devido a 'crimes contra humanidade'

Adnan Bakkour. Foto: BBC
Image caption Procurador-geral de Hama diz ter visto mais de 70 de execuções e centenas de casos de tortura

Um homem que diz ser a maior autoridade da Justiça da cidade síria de Hama, no centro do país, afirma ter renunciado ao cargo após testemunhar crimes contra a humanidade.

Em uma declaração gravada em vídeo, o procurador-geral do governorado de Hama, Adnan Bakkour, diz ter visto mais de 70 de execuções e centenas de casos de tortura.

O vídeo foi publicado na internet nesta quarta-feira, mas não se sabe quando ele foi gravado.

Nessa segunda-feira, a agência de notícias estatal síria disse que Bakkour havia sido sequestrado por homens armados quando se encaminhava para o trabalho.

A agência citou a polícia de Hama, dizendo que o procurador-geral, seu motorista e um guarda-costas foram sequestrados no vilarejo de Karnaz.

Desde então, não houve novos relatos a respeito da situação de Bakkour.

'Gangues'

Em seu pronunciamento, o procurador-geral disse que estava se demitindo devido ao regime do presidente sírio, Bashar Al-Assad, e "suas gangues".

No vídeo, Bakkour cita como motivos para sua renúncia a morte de 72 detentos na prisão central de Hama em 31 de julho deste ano, incluindo manifestantes pacíficos e ativistas políticos, e o enterro de mais de 420 vítimas em valas comuns em parques públicos por integrantes das forças de segurança e milicianos pró-governo.

Outras razões citadas pelo procurador-geral são as detenções arbitrárias de manifestantes pacíficos (segundo ele, 10 mil deles continuam detidos), a tortura de prisioneiros por parte das forças de segurança, com a morte de 320 pessoas torturadas, e a demolição de casas, com moradores dentro, por parte do exército sírio.

Bakkour chamou de "criminosos" aqueles responsáveis pelo massacre de manifestantes.

Neste grupo, ele inclui os chefes locais do Ministério do Interior, da polícia, da inteligência militar e do Diretório Geral de Segurança, órgão federal de inteligência da Síria.

O procurador-geral também acusou diversas outras autoridades de tortura.

Direito de imagem BBC World Service
Image caption Milhares de sírios protestaram contra Assad no fim do mês sagrado do Ramadã

Operação militar

A publicação do vídeo ocorreu enquanto tropas e tanques realizaram uma operação em casas de Hama, em busca de ativistas responsáveis pelos protestos que exigem a queda do regime de Assad, segundo afirmam residentes.

Na terça-feira, segundo ativistas, pelo menos sete pessoas foram mortas a tiros pelas forças de segurança, enquanto milhares de pessoas participaram de manifestações improvisadas depois das orações que marcaram o fim do mês sagrado islâmico do Ramadã.

Os ativistas dizem que seis pessoas foram mortas no governorado de Deraa, no sul do país, sendo duas elas na cidade de Al-Harra.

Depois, a Anistia Internacional divulgou detalhes sobre 88 pessoas que teriam sido mortas enquanto estavam detidas pela polícia, incluindo vídeos de corpos apresentando sinais de agressões, queimaduras, choques elétricos e outros abusos.

A ONU afirma que mais de 2.200 pessoas já foram mortas na Síria desde que os protestos por reformas democráticas começaram, em março. O governo de Assad culpou "gangues criminosas armadas" pelo levante popular.

O acesso de jornalistas na Síria foi fortemente restringido, o que torna praticamente impossível a verificação de informações de forma independente.

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