Vaticano nega ter impedido investigação sobre abuso sexual na Irlanda

Praça de São Pedro, no Vaticano. | Foto: AFP Direito de imagem AFP
Image caption O Vaticano disse estar "envergonhado" pelo escândalo dos estupros de crianças na Irlanda

O Vaticano rejeitou, neste sábado, as acusações do primeiro-ministro irlandês Enda Kenny, de que teria sabotado uma investigação sobre o estupro de crianças por padres no país.

As críticas foram feitas após a divulgação do relatório Cloyne, que mostrava como as alegações de abusos sexuais na cidade de Cork foram encobertas pela Igreja.

Em um discurso no parlamento em julho, Kenny acusou a Igreja de colocar sua reputação antes das vítimas de abuso.

O Vaticano disse "sentir muito e estar envergonhado" pelo escândalo, mas afirmou que as acusações do primeiro-ministro são "infundadas".

"A Santa Sé está profundamente preocupada com as conclusões da comissão de investigação sobre os graves erros cometidos pelo governo eclesiástico da diocese de Cloyne", disse o Vaticano, em uma resposta detalhada às afirmações.

"A Santa Sé não impediu ou tentou interferir de nenhuma maneira em qualquer inquérito sobre casos de abuso sexual de crianças na diocese de Cloyne."

"Além disso, a Santa Sé não interferiu em nenhum momento na lei civil irlandesa ou impediu a autoridade civil de exercer seus deveres."

'Má interpretação'

O primeiro-ministro disse ao parlamento irlandês que o relatório mostrou que a necessidade de mudanças é urgente.

"O estupro e tortura das crianças foram diminuídos ou 'administrados' para manter a prioridade da instituição, seu poder, posição e 'reputação'", disse Kenny.

O parlamento aprovou uma moção de repúdio à Santa Sé por "enfraquecer as estruturas de proteção infantil", depois que uma carta do Vaticano para os bispos irlandeses teria diminuído a importância das diretrizes irlandesas sobre as denúncias de abuso sexual.

O Vaticano chamou de volta seu enviado especial em Dublin, Giuseppe Leanza, para discutir o impacto do relatório.

Mas a resposta da Santa Sé, publicada neste sábado, diz que as acusações de Enda Kenny foram baseadas em uma má interpretação da carta de 1997 do Vaticano, que expressava "sérias reservas" às diretrizes irlandesa de 1996, que exigiam que os bispos fizessem denúncias obrigatórias à polícia em casos de suspeita de abusos.

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Image caption O primeiro-ministro irlandês disse que a Igreja colocou sua reputação antes das vítimas

"Em espírito e humildade, a Santa Sé, mesmo rejeitando as acusações infundadas, aceita todas as observações objetivas e úteis e as sugestões de combater com determinação o crime estarrecedor de abuso sexual de menores", disse a instituição em comunicado.

Relatório

Lançado em julho, o relatório de 400 páginas concluiu que o bispo John Magee - se retirou do cargo em março de 2009 depois de servir como bispo de Cloyne desde 1987 - tinha mentido para o governo e para o serviço de saúde sobre sua diocese estar relatando todas as alegações de abuso às autoridades.

O relatório também concluiu que o bispo deliberadamente atrapalhou outra investigação e enganou a seus próprios conselheiros, criados dois relatos diferentes sobre o encontro com um padre suspeito de abuso - um relato para o Vaticano e outro para os arquivos diocesano.

No entanto, a diocese de Cloyne não implementou os processos estabelecidos no protocolo da Igreja para lidar com suspeitas de abuso sexual.

O cardeal Sean Brady, líder dos quatro milhões de católicos da Irlanda, disse que a demora do Vaticano em responder ao relatório e a eficácia de sua resposta mostra que a Igreja leva o assunto a sério.

"Eu acredito que isso contribuirá com a cura dos que foram atingidos e também para um trabalho conjunto de todos os que estõ preocupados com a proteção das crianças", disse o cardeal em comunicado.

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