Crescimento alto não livra emergentes do risco de crise, diz Unctad

Porto de Qingdao, na província de Shandong , China. Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Enxugamento do mercado consumidor dos países desenvolvidos pode refletir nos emergentes

Apesar de manterem um crescimento econômico forte, os países emergentes permanecem vulneráveis aos choques comerciais e financeiros do mundo. A conclusão é de um estudo da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento), divulgado nesta terça-feira.

No relatório "Comércio e Desenvolvimento 2011 - A economia mundial face aos desafios do pós-crise", a organização ressalta que as economias emergentes estão expostas aos movimentos de capitais especulativos gerados nos países desenvolvidos.

Diferente do descolamento ocorrido em 2008, desta vez tais mercados não seriam poupados por uma nova recessão nas economias ricas, segundo o relatório.

"Apesar do crescimento dos países em desenvolvimento ter se tornado cada vez mais dependente da expansão dos mercados internos, essas nações ainda enfrentam sérios riscos externos devido ao enfraquecimento econômico dos países desenvolvidos e à falta de reformas reais dos mercados financeiros internacionais", afirma a Unctad.

O relatório revela ainda que após uma rápida recuperação pós-crise, a economia global está desacelerando. O crescimento do PIB mundial, que foi de 4% em 2010, não deverá ultrapassar 3% neste ano, prevê a Unctad.

América Latina

Atualmente, o destaque de crescimento é dos países emergentes, "que retomaram suas tendências de crescimento pré-crise e estão se expandido em cerca de 6% neste ano", diz o estudo.

Na América Latina, o crescimento continua sendo "robusto", estimulado pelo consumo interno, pela demanda de investimentos e pelos ganhos no comércio internacional, afirma a Unctad, que prevê aumento de 4,7% do PIB da região em 2011.

"Enquanto a economia brasileira está desacelerando, a Argentina e a maioria dos países andinos devem registrar outro ano de rápido crescimento."

Segundo a Unctad, a economia brasileira deve crescer cerca de 4% neste ano, taxa próxima às novas estimativas do governo, que reduziu as previsões de crescimento.

Novos choques financeiros e comerciais podem, no entanto, afetar seriamente o volume das exportações dos países em desenvolvimento e também os preços das commodities, como ocorreu na crise em 2008, afirma a Unctad.

Rigor

O relatório afirma que a recuperação econômica dos países ricos está perdendo o fôlego porque a demanda interna privada continua fraca.

Além disso, as medidas macroeconômicas de estímulo à economia, adotadas durante a crise, passaram a ser substituídas desde meados de 2010 por planos de rigor para tentar recuperar a confiança dos mercados financeiros.

O órgão da ONU critica fortemente "o aperto prematuro" das políticas orçamentárias nos países ricos, com a aplicação de planos de austeridade que "ameaçam a recuperação da economia mundial".

A Unctad alerta que a redução das despesas orçamentárias pode causar uma queda das receitas superior às economias realizadas, o que teria consequências “nefastas” sobre a viabilidade a longo prazo das finanças públicas e da dívida.

"A alta do endividamento público é uma consequência da crise e não a sua causa. Uma política de estímulo ao crescimento tem mais chances de reduzir o déficit orçamentário e de controlar a dívida pública do que medidas de austeridade."

A organização alerta ainda para a "aplicação de medidas orçamentárias e monetárias mais rigorosas representa um grande risco de prolongar o período de crescimento medíocre e até mesmo uma contração nas economias desenvolvidas".

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