Temor com a Grécia deve causar mais instabilidade, dizem analistas

Bolsa de Madri. AP Direito de imagem ap
Image caption Eurobônus são vistos como uma das saídas para a crise, mas a Alemanha resiste à opção

O temor de que a Grécia anuncie um calote nos próximos dias levou turbulência no mercado financeiro nesta segunda-feira. As bolsas europeias fecharam em queda, com reflexos nos Estados Unidos e no Brasil, onde a Bovespa registrou baixa de 0,17%.

Em Londres, a bolsa teve queda de 1,63%. Em Frankfurt, a baixa foi de 2,27%. Em Nova York, as perdas na Europa refletiram no início do dia; no entanto, o índice Dow Jones se recuperou no fim da sessão e fechou em +0,63%. Já o Nasdaq subiu 1,1%.

Para o professor Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios, e Vitória Saddi, do Insper, a instabilidade deve continuar nos próximos dias. Os analistas acreditam em um calote grego nas próximas semanas.

"A Grécia deve entrar em situação de default. Não há como pagar seus compromissos. Ou dá o calote e não paga os credores, ou o FMI e a União Europeia terão de entrar com uma proposta de alongamento da dívida", diz Leite à BBC Brasil.

A instabilidade também reflete as declarações do ministro das Finanças da Alemanha, Philipp Roesler, que no fim de semana defendeu, "se necessário, uma falência ordenada da Grécia, se todos os instrumentos estiverem disponíveis".

No Brasil, a instabilidade também teve reflexos no mercado cambial, onde o dólar subiu 1,93%, cotado a R$ 1,7095 – primeira vez no ano em que a moeda americana fechou acima de R$ 1,70.

"Em momentos de insegurança, os investidores acabam substituindo os investimentos de renda variável por outros mais seguros. O dólar ainda é uma moeda usada como meio de transação. Como há uma demanda maior, o dólar se valoriza", diz Leite.

Já Vitória afirma que o dólar também se valoriza frente ao euro, igualmente motivado pela instabilidade europeia.

Pacote

O governo grego deveria ter acesso, neste mês, a uma das parcelas do pacote de ajuda coordenado pela Comisão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI, chamada de "troika". O acordo foi fechado em maio deste ano.

Como a Grécia não cumpriu uma série de requisitos, como baixar o déficit fiscal nas últimas semanas, muitos analistas já dão como certo que os gregos não terão acesso ao dinheiro e, consequentemente, não terão como honrar seus compromissos.

Um relatório da "troika" a ser publicado nas próximas semanas deve dizer se os gregos terão acesso à parcela do pacote ou não.

A instabilidade nas bolsas seria uma mostra de que o mercado já está absorvendo o provável calote grego.

"Ainda que se diga que será um default anunciado, vai ser um baque para o sistema financeiro", diz Vitória. A professora do Insper acha, no entanto, que o impacto será diferente das moratórias latino-americanas do passado.

"No caso da Argentina, eles anunciaram o calote e só resolveram renegociar mais de um ano depois. No caso da Grécia, haverá renegociação", diz.

Para Leite, o mercado já está "precificando" o calote. "O que estamos sentindo é a antecipação desse quadro", diz o professor.

Eurobônus

Parte da instabilidade nas bolsas também resulta da frustração do mercado financeiro diante da resistência da Alemanha em concordar com a unificação dos bônus europeus para a emissão dos chamados eurobônus.

Leite se diz preocupado com a inflexibilidade da Alemanha, país que, segundo ele, tem dificuldade para lidar com o problema.

"O ex-chanceler (primeiro-ministro) alemão Gerhard Schroeder já deu apoio ao eurobônus, que seria um passo para a unificação da política fiscal da Europa. Hoje temos uma política monetária única, mas não uma política fiscal", afirma.

A emissão dos eurobônus iria juntar os títulos alemães, considerados confiáveis, aos papéis emitidos pelos países periféricos da zona do euro – que já chegaram a ser classificados como "lixo" por agência de classificação de risco.

"Isso criaria um lastro para os bônus europeus. Como a economia da Grécia é irrisória diante da Alemanha, os títulos gregos iriam se dispersar", diz o professor da Trevisan Escola de Negócios.

"A resistência está no aumento da dívida da Alemanha e da França (para sustentar os bônus sem lastro das demais economias)."

Alemanha

Para os analistas ouvidos pela BBC Brasil, parte da crise financeira na Europa decorre da falta de consenso político nas instituições europeias e, mais especificamente, de ruídos na coalizão de governo da Alemanha.

Por ser a maior economia da zona do euro, a cena política de Berlim tem hoje reflexos em toda a Europa.

A chanceler Angela Merkel, que deve concorrer à reeleição em 2013, sofre com a oposição de setores da opinião pública que não querem pagar a dívida contraída pelos gregos.

"O problema parece político. A Alemanha sustenta a Europa. A Merkel dá mostras de que não quer emitir os eurobônus, mas isso tem a ver com a política interna", diz Vitória.

Os dois analistas não acreditam, no entanto, que a Grécia deva deixar a zona do euro, como foi sugerido nesta segunda-feira por Christian Lindner, um alto integrante do governo alemão, com um comentário que só fez aumentar as tensões em Berlim.

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