Lucas Mendes: Carteiro, my love

Há 10 anos o correio americano empregava mais de 900 mil pessoas. Já demitiu 250 mil empregados e quer demitir mais 220 mil. Esta é a boa notícia. A ruim é que o correio pode deixar de existir em 2012.

Só este mês vai dar um cano - um default, em lingo fino - de 5.5 bilhões e o deficit de 2011 vai chegar a 9 bilhões.

Já está pendurado em quase 15 bi e só nos últimos quatro anos perdeu 20 bilhões. Um assombro de bis.

O fim do correio americano parece exagero, mas se depender de uma união de democratas e republicanos, nossos queridos carteiros estão fritos.

Carteiros brasileiros em greve, prestem atenção. O maior culpado pela crise é o e-mail.

A cada ano mandamos menos cartas e o USPS - United States Post Service ou U.S.P.O. United States Post Office - está contido por uma série de leis que não permitem modernizar nem reduzir custos.

Na modernização o correio capitalista perdeu feio para os socialistas europeus que começaram a terceirizar há mais de vinte anos. Na Suécia, só 12% das locações do correiro ficam por conta do Estado. Na Alemanha, só 2%.

Na Europa, você pode pagar contas no correio, comprar seguros e telefones celulares. No americano nada disto é permitido, nem usar os seus 128 mil caminhões e suas locações para arrecadar dinheiro com comerciais.

Nixon transformou o correio numa corporação estatal que deveria viver com a renda dos próprios negócios, a venda de selos e outros produtos.

Anos mais tarde, o correio foi autorizado a tomar dinheiro emprestado, mas tinha de viver da própria arrecadação e não podia aumentar o preço do selo acima da inflação. Estas leis estão em vigor.

Antes da internet, o esquema as vezes apertava mas funcionou. Quando ficava pobre o correio inventava soluções, como uma campanha contra câncer no seio, com um selo especial, mais caro. Ganhava um dinheirinho e o problema ficaba adiado ou resolvido pela metade.

O correio é o segundo maior empregador dos Estados Unidos - só perde para a Wal-Mart - e aí está a maior parte do problema. 80% do custo do correio é com pessoal, enquando nos concorrentes, estes gastos representam 32% no FEDEX e 53% na UPS.

Os carteiros americanos têm benefícios de aposentadoria e na saúde, a la grega.

Na última negociação, em março, o poderoso sindicato conseguiu incluir uma cláusula que proíbe demissões.

Se não demitir, quebra. Se demitir, os políticos democratas, inclusive Obama, podem perder as fartas contribuições do sindicato e até seus empregos.

Se quebrar leva um pedaço do país junto.

Washington não vai deixar uma das mais nobres, mais antigas, mais confiáveis instituições do país - nasceu em 1775 - ir à falência. Mas, sem demissões e redução nas pensões, as soluções até agora foram pobres.

Uma delas é parar de entregar cartas aos sábados. Já aconteceu no 13 de abril, em 1957. O povo gritou, Eisenhower ouviu e na semana seguinte o carteiro estava nas casas no sábado.

Em maio de 64, houve nova suspensão de cartas aos sábados e durou quase dois anos até o presidente Johnson arranjar o dinheiro para os carteiros.

Com o deficit, a briga entre os partidos, a explosão do e-mail e das compras pela internet, esta crise de 2011 é pior do que as outras.

Além de demitir o que foi permitido, o correio começou a vender suas propriedades, muitas delas, preciosas. Vão ser transformadas em restaurantes, spas e lojas de luxo.

Dezenas são prédios históricos que, na década de 30, com o “New Deal” do presidente Roosevelt, foram decorados com pinturas, esculturas, murais, painéis e escadas de madeiras nobres brasileiras.

A intençãao da arte não era gerar empregos para artistas, mas, levantar o espírito dos desempregados durante a Grande Depressão. Ambientes públicos grandes e bonitos para a massa triste.

Os compradores dos preéios fazem acordos e promessas de preservar as obras de arte e decorações, mas, como a gente sabe, nem sempre o que está escrito é cumprido.

Se eu quiser mandar uma carta para um índio nos cafundós do Gran Canyon, ou, ainda mais longe, alguém num vilarejo de 100 habitantes no Alasca, o correio me cobra o mesmo preço de mandar uma carta para o vizinho do andar de cima.

E nas cidades a entrega é garantida, de um dia para outro.

Para um correio que, pelo lema, entrega suas cartas em qualquer condição climática, a paisagem político-financeira de Washington é pior do que um furacão.

Um senador sugeriu que os que gostam do correio escrevam, como antigamente, cartas diárias e apaixonadas para seus e suas amantes.

Além de irrigar o amor podem salvar o correio.

Quem não tem amante e gosta do correio, ou do carteiro, deve escrever para ele. Todos os dias.