Adotar ajuste fiscal não será fácil para o Brasil, diz economista do Bird

Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption No início do ano, Mantega afirmou que governo adotaria ajuste fiscal de R$ 50 bilhões

No momento em que se prepara para grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o Brasil não terá uma tarefa fácil ao cumprir sua promessa de ajuste fiscal, disse nesta terça-feira à BBC Brasil o economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina, Augusto de la Torre.

"É um desafio muito grande, porque o Brasil está enfrentando um ano de gastos importantes, associados à Copa do Mundo e todo o resto. Então não vai ser fácil cumprir a promessa de fortalecer a posição fiscal", afirmou.

No início deste ano, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a intenção do governo de fazer um ajuste fiscal de R$ 50 bilhões.

O economista diz que o cumprimento das medidas é crucial para o país, especialmente diante do início de uma trajetória de redução da taxa básica de juros (Selic).

No mês passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic pela primeira vez neste ano, de 12,5% para 12%, em uma decisão que surpreendeu analistas e foi justificada em parte pelo aumento da incerteza global.

Segundo De la Torre, o rumo da política fiscal no Brasil é o que vai determinar se a decisão do Banco Central foi correta ou não.

"A variável chave é se as ações que estão tomando na taxa de juros serão compensadas por uma posição fiscal mais forte", afirma.

Crise

O economista afirma que, caso o Brasil consiga levar adiante seu esforço fiscal, estaria bem preparado para uma eventual nova crise internacional. Caso contrário, "a situação pode não ser tão favorável".

"Se conseguir fazê-lo, vai ter espaço fiscal e monetário caso o mundo venha abaixo. Se o mundo não vier abaixo, o ajuste fiscal vai abrir espaço para que a política monetária possa ter uma taxa de juros mais baixa, sem que isso recrudesça as expectativas inflacionárias", disse.

A manutenção de altas taxas de juros é usada como arma contra as crescentes pressões inflacionárias, em um momento em que a taxa de inflação no Brasil corre o risco de fechar o ano acima do teto da meta, que é de 6,5%.

Assim como o Brasil, vários outros países latino-americanos que trabalham com metas de inflação têm mantido suas taxas de juros bem acima da média internacional e, principalmente, de economias avançadas como Estados Unidos ou Japão, onde essas taxas estão próximas de zero.

Essa margem para baixar juros – e fazê-lo rapidamente – deixa os latino-americanos em vantagem caso ocorra uma piora no cenário global.

O aumento das incertezas na economia mundial, especialmente nos Estados Unidos e em alguns países da Europa que enfrentam crises de dívida e déficit, levou o Banco Mundial a projetar crescimento de entre 3,5% e 4,5% para a América Latina neste ano, bem abaixo dos 6% registrados no ano passado.

Em seu mais recente relatório sobre o estado da economia na região, lançado nesta terça-feira em Washington, o Banco Mundial diz que a recuperação econômica após a crise de 2008 começa a dar lugar a uma "dinâmica de crescimento mais madura, mas menor".

China

O relatório ressalta, porém, que mesmo que a situação das economias avançadas se agrave, alguns países latino-americanos poderão manter sua atividade econômica relativamente livre de contágio, caso a China continue crescendo e os preços das commodities não sofram uma queda muito grande.

A relação com a China merece atenção especial no documento e é citada como um dos principais fatores que contribuíram para o que o Banco Mundial define como "crescimento robusto" apresentado pela América Latina na última década.

"Coincidentemente ou não, o crescimento da produtividade na região aumentou à medida que esses laços se aprofundaram", diz o documento.

O relatório compara essa relação com aquela mantida entre os países conhecidos como Tigres Asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan) com o Japão entre os anos 1970 e 1990 – na época, um vizinho com grande crescimento e progresso tecnológico.

A conclusão, porém, é a de que, enquanto a relação com o Japão rendeu uma significativa transfusão de conhecimento e tecnologia para os Tigres Asiáticos, o mesmo não ocorre no relacionamento da América Latina com a China.

O Banco Mundial diz que, até o momento, não há evidência de que a relação com a China – baseada principalmente na enorme demanda chinesa por matérias-primas abundantes na América Latina – esteja sendo acompanhada de um processo de difusão tecnológica para a região.

"O ponto central é que a conexão comercial sozinha, quando não vem acompanhada ou não leva à formação de capital humano, investimentos em inovação, adoção e adaptação de tecnologia, não induz ao crescimento de produtividade", diz o documento.

No entanto, o Banco Mundial observa que a própria relação da América Latina com os Estados Unidos sugere que há também "razões estruturais e institucionais mais profundas" pelas quais as economias da região são menos propensas a absorver tecnologia e conhecimento.

"A nova conexão com a China não vai por si só alterar essas deficiências", diz o relatório. "Isso é uma tarefa para uma agenda de políticas bem elaboradas e implementadas e orientadas para o crescimento, uma agenda que, em geral, ainda está faltando."

Notícias relacionadas