Ivan Lessa: Terra do mar, torres rudes

Nada nem ninguém se dá a conhecer. Você pensa que sabe um pouco disso, outro tanto daquilo. Daí, um dia, fica descobrindo ou que não era nada daquilo ou que tinha muita coisa mais.

Eu, que me considero realista, achava que tinha uma ligeira ideia do que fosse Londres. Por andações, leituras e documentários televisados. Nada. Minha esquina continuará para sempre um mistério para mim. E eu para ela e os que nela param para atravessar o sinal. Assim deve ser e espero que continue.

Mas há surpresas maiores. Esta semana um dileto (que ainda os há) amigo enviou-me um artiguete escrito para o blog, ou portal, do esplêndido jornalista Luis Nassif, que ainda se dá ao luxo de ser excelente bandolinista e pesquisador de nossa grande criação, o choro.

Dou as coordenadas para justificar o plágio informático (anda na moda) vergonhoso por mim praticado, mas quando a coisa é boa, e as fontes fidedignas, vale a pena. Boto panos quentes acrescentando que andei dando umas botinadas sozinho na net.

Vamos à coisa então. Num artiguete de umas duas laudas (lembram das laudas?), Wilson Oshio me ensina o que eu, com décadas deste Reino Unido, deveria estar cansado de saber. Que há um território na costa da Grã-Bretanha em busca de reconhecimento internacional chamado Sealand e que seu senhor e amo, o auto-intitulado Príncipe de Sealand (na verdade é mais conhecido como Major Paddy Michael Bates), de 60 anos, esteve, ou está, no Brasil em busca de de apoio à sua causa, de duro entendimento e aceitação.

O “Príncipe”, acompanhado do filho James, esteve numa reunião da Bienal do Mercosul, no Rio Grande do Sul, aproveitando a ocasião, e também sua passagem pelo Rio, para vender títulos de nobreza de sua nação.

Andou se lamentando, no entanto, que os brasileiros não estão interessados em títulos de nobreza. O “Príncipe” não falou nada mas eu arrisco dizer que os brasileiros, especialmente aqueles com quem se avistou, já tem os títulos, apólices e investimentos bem guardadinhos em algum banco de, digamos, Aruba.

O Principado de Sealand – prossigo guiado por Wilson Oshio do Portal Luis Nassif – é uma ilha artificial construída para combater a Alemanha nazista na Segunda Guerra. O complexo por ela formado recebeu o título de Rough Towers devido aos dois pilares que se erguem do mar equilibrando a plataforma.

Em 1967, o pai do atual “Príncipe”, o militar Roy Bates, resolveu fazer da ilha base de rádio pirata (vide rádios Caroline e Luxemburgo), pois estava na moda, no que foi logo preso, juntamente com Michael.

Corte britânica vai, corte vem, e acabaram dando ganho de causa à família Bates, que, no mesmo instante da vitória jurídica, evoluiu para nação, com bandeira, hino, selos, moeda e relativa fama.

O moto de Sealand é, claro, em latim e diz E MareLibertas (Do Mar, a Liberdade), acumulando ainda as funções de hino oficial desse Estado que se diz soberano sem ser reconhecido por nenhum Estado soberano, a não ser que se conte o Livro Guinness como Estado soberano. No tomo em questão, Sealand aponta Sealand como a menor nação do mundo.

Sealand não tem áreas cultiváveis ou qualquer espécie de indústria. É de aço e cimento e seu PIB avaliado em US$ 600 mil, auferidos graças ao comércio na internet, onde vende camisetas, bandeiras e bótons, além dos títulos de Lorde e Barão, negociados, respectivamente, a entre US$ 50 e US$ 60 (“Mas para o senhor a gente faz um desconto”. Farão mesmo?).

Sua população, para muitos, é a ideal: entre 2 e 25 indivíduos, sendo que ainda se dá ao luxo de ter mais detentores de passaporte do que nativos: 175 deles carinhosamente chamados de genuínos já foram emitidos

Conforme disse o “Príncipe” Paddy, entre nós, “todos deveriam ter o direito ao discurso”.

Tenho minhas dúvidas sobre qualquer discurso feito por entre 2 e 25 pessoas, principalmente quando pronunciados em simultâneo, dá em qualquer coisa parecida com a Primavera Árabe. Algo assim feito uma miniatura de tsunami.