Em Nova York, Dilma oferece 'recursos políticos' para solucionar crise

Dilma durante reunião nesta quinta-feira/AP Direito de imagem BBC World Service
Image caption Presidente pede que AIEA verifique também armas nucleares

A presidente Dilma Rousseff disse nesta quinta-feira em Nova York que o Brasil quer participar do “diagnóstico” da crise econômica global e ofereceu “recursos políticos” para ajudar a solucioná-la.

Segundo Dilma, embora a crise seja especialmente nociva aos Estados Unidos e à Europa, o Brasil e outros países emergentes têm sido afetados indiretamente por ela, já que a redução da demanda nos países ricos gera uma competição pelos crescentes mercados emergentes e provoca políticas que distorcem o equilíbrio entre as moedas.

Ela ainda afirmou que as nações em desenvolvimento hoje são as principais responsáveis pelo crescimento global.

“O governo não acha que solucionará o problema europeu colocando dinheiro de nossas reservas no fundo de estabilização – o problema não é a falta de recursos”, disse a presidente em coletiva de imprensa, após participar de um encontro na ONU sobre segurança nuclear. “Estamos dispostos a participar com recurso políticos”.

A presidente afirmou ainda que, por ter enfrentado a crise da dívida nos anos 1980, a América Latina hoje tem lições a ensinar aos países mais afetados pelo endividamento.

Para Dilma, o combate à crise atual deve ser iniciado por uma ação que garanta à Grécia a capacidade de estruturar suas contas públicas, evitando o contágio por outros países europeus.

Ela defendeu a renegociação da dívida grega, tema que enfrenta grande resistência entre alguns países europeus, e a criação de linhas de financiamento que garantam a Atenas a execução de investimentos públicos básicos.

Na avaliação da presidente, a busca de uma solução que se concentre em cortes de gastos governamentais tende a provocar uma “espiral recessiva”, já que, com a redução drástica dos investimentos, o governo teria menos receitas, o que por sua vez exigiria novos cortes de despesas para pagar as dívidas, e assim sucessivamente.

Os últimos planos anunciados pelos países europeus para resgatar a Grécia não previam a renegociação da dívida, mas sim empréstimos para ajudar a saldá-la, exigindo como contrapartida cortes em gastos governamentais.

No entanto, os planos não acalmaram os mercados, que não só desconfiam da capacidade grega em continuar honrando sua dívida – a quebra afetaria vários bancos multinacionais –, como temem que a situação se repita em outros países europeus também altamente endividados.

Na segunda-feira, a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou sua nota para a dívida soberana de curto e longo prazo da Itália, o que indica menor confiança na capacidade do país em saldá-la. Alguns dias antes, bancos franceses também tiveram sua classificação rebaixada, devido à sua exposição à dívida grega.

Investidores também temem calotes em Portugal, Irlanda e Espanha.

Guerra cambial

Em sua fala, Dilma também se referiu um dos efeitos colaterais da crise econômica – a chamada “guerra cambial”.

Segundo ela, enquanto não houver uma articulação macroeconômica global que faça com que os países levem em conta os impactos de suas medidas em outras nações, continuará havendo uma competição “extremamente adversa”.

O Brasil tem se queixado especialmente das políticas monetárias dos Estados Unidos e da China.

Na avaliação do governo brasileiro, ao imprimir mais dinheiro na tentativa de estimular sua economia interna, os Estados Unidos provocam uma corrida de investidores a títulos brasileiros, mais rentáveis.

Isso provoca a valorização do real, prejudicando as exportações nacionais. Nos últimos dias, no entanto, a intensificação da crise na Europa levou a uma reversão dessa tendência, e o real desvalorizou-se bruscamente.

Quanto à China, o Brasil avalia que Pequim mantém o yuan artificialmente desvalorizado, o que lhe confere uma vantagem indevida em suas exportações, mais baratas.

“Enquanto houver esse tipo de conduta, haverá um movimento de instabilidade das moedas”, afirmou a presidente.

A coletiva encerrou os eventos oficiais da presidente em Nova York, onde discursou na abertura da 66ª Assembleia Geral da ONU, na quarta-feira, e manteve vários encontros bilaterais. A presidente deve embarcar rumo ao Brasil nesta tarde.

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