No FMI, Mantega pede 'resposta firme' para evitar nova recessão

Ministro Guido Mantega. Reuters Direito de imagem AP
Image caption Mantega quer mais cotas para o Brasil no FMI; ele também elogiou EUA por ação contra desemprego

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, cobrou neste sábado uma "resposta firme" das autoridades econômicas para evitar que o mundo mergulhe em uma nova recessão.

"Turbulência excepcional nos mercados financeiros e confiança debilitada podem levar a uma nova recessão, especialmente nos Estados Unidos e na zona do euro", diz a declaração de Mantega ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês), que se reuniu em Washington.

"A não ser que haja uma resposta firme das autoridades, o melhor cenário para esses países parece ser estagnação prolongada, com alto desemprego", diz o pronunciamento ao IMFC, que é o órgão que tem o papel de assessorar do conselho de diretores do FMI (Fundo Monetário Internacional) e recomendar a adoção de políticas.

Repetindo um alerta feito ao longo da semana, na qual participou de encontros de ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e do G20 (grupo das principais economias avançadas e emergentes, entre elas o Brasil) na capital americana, Mantega afirmou que caso haja uma nova recessão, todos os países serão afetados, "em menor ou maior grau".

O ministro observa na nota que a situação atual é semelhante à de 2008, que marcou o auge da crise econômica mundial.

"A gravidade dos eventos recentes está nos levando a um daqueles pontos em que a cooperação é absolutamente indispensável", diz o texto que apresentado pelo ministro em nome do Brasil e de outros oito países em desenvolvimento (Colômbia, República Dominicana, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, Suriname e Trinidad e Tobago).

Emergentes

Segundo Mantega, os países avançados não podem mais lidar sozinhos com os riscos à estabilidade global, em um momento em que as economias emergentes e em desenvolvimento são responsáveis pela maior fatia do crescimento econômico.

"Uma porção considerável dos recursos que o FMI tem emprestado nos últimos anos tem vindo de reservas internacionais fornecidas por China, Brasil, Índia, Rússia e outros mercados emergentes", diz Mantega, sem citar o quinto integrante dos Brics, a África do Sul, última a se unir ao bloco.

Ao longo da semana, discutiu-se a possibilidade de que os Brics pudessem comprar títulos da dívida de países europeus, para ajudar a fortalecer esses papeis, em um momento em que a crise de dívida em diversas economias da zona do euro se aprofunda, com risco de calote pela Grécia.

No encontro em Washington, porém, os ministros do grupo apenas manifestaram solidariedade e disseram estar abertos a "considerar, se necessário, fornecer apoio por meio do FMI ou outras instituições financeiras internacionais".

Mantega volta a dizer, porém, que é responsabilidade das autoridades europeias garantir que suas ações impeçam o contágio além da periferia do euro, e ressalta que quanto mais demorarem a agir, mais difícil e mais cara ficará a resposta à crise.

Estímulo

Em referência aos Estados Unidos, cujo governo recentemente apresentou uma proposta para geração de empregos, ainda dependente de aprovação do Congresso, Mantega afirma que a medida é bem-vinda.

De acordo com o ministro, os países que ainda têm "algum espaço fiscal" devem adotar medidas de estímulo, mas criticou medidas adicionais de afrouxamento monetário, que acabam provocando um fluxo excessivo de capitais rumo aos emergentes.

Os Estados Unidos são foco constante das críticas, por sua política monetária expansionista. Na sexta-feira, Mantega comentou o anúncio feito nesta semana pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano) de que irá comprar US$ 400 bilhões em títulos de longo prazo para colocar no mercado valor igual em títulos de curto prazo, em uma tentativa de aumentar a liquidez.

"Se isso fosse canalizado para investimento e consumo nos Estados Unidos, estaria certo. O problema é que não vai para consumo e investimento e acaba desvalorizando o dólar e causando fluxos de moedas nos outros mercados", disse o ministro

Cotas

No pronunciamento, Mantega volta a cobrar maior agilidade na implementação das reformas para dar uma maior parcela de cotas e maior poder de decisão no FMI.

"Uma vez que o aumento de cotas acordado em 2010 seja efetivado, o Brasil, por exemplo, será o décimo maior detentor de cotas no Fundo. No entanto, o Brasil é atualmente a sétima maior economia do mundo."

É reclamação antiga do Brasil e de outros emergentes o fato de a divisão de poder em organismos como o FMI não refletir mais sua importância na economia global.

O ministro também cobra maior diversidade nas posições mais importantes da direção do órgão. O fato de o FMI ser tradicionalmente comandado por um europeu - enquanto o Banco Mundial fica a cargo de um americano - é questionado pelos emergentes.

A discussão voltou a ganhar força no meio do ano, durante o processo de sucessão do diretor-gerente do FMI, o francês Dominique Strauss-Kahn, que acabou sendo substituído pela também francesa Christine Lagarde.

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