Tendência é consumidor ser remunerado por resenhas, diz especialista

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Image caption Para especialistas, 'monetarização' de processo de resenhas pode beneficiar sites como a Amazon

Escrever resenhas de produtos para varejistas virtuais como a Amazon deverá se tornar uma atividade remunerada, na visão de um especialista.

"Vários estudos demonstraram que essas resenhas são extremamente importantes, que as pessoas compram produtos baseados nelas", disse à BBC Brasil Trevor Pinch, professor de Estudo de Tecnologia e Ciências da Cornell University, nos Estados Unidos.

"A Amazon está fazendo muito dinheiro às custas do trabalho dessas pessoas. Por que esse trabalho deve ser feito de graça?", pergunta Pinch, que em 2010 publicou um estudo sobre os consumidores que escrevem resenhas para a Amazon, o maior varejista online do mundo.

"Deve haver uma monetarização desse processo, que permita que estes resenhistas sejam recompensados. Talvez com cupons por exemplo."

Pinch acredita que essa monetarização pode beneficiar a Amazon, que poderá controlar melhor o sistema das resenhas.

"Quando você passa a pagar as pessoas, se preocupa mais com a qualidade das resenhas, e isso pode ajudar a acabar com as resenhas falsas ou copiadas", diz ele.

Primórdios

Com a eventual retomada da compensação por resenhas, a Amazon estaria retomando uma prática dos seus primórdios.

O estudo de Pinch, intitulado Como Tia Ammy ganha o seu almoço de graça: um Estudo dos Top 1000 consumidores resenhistas da Amazon.com, conta que a empresa foi fundada por Jeff Bezos em 1995 com a ideia de que oferecer, online, um misto de livraria com revista literária.

Nos seus primeiros anos, a empresa contratava editores para deixar consumidores a par do que estava acontecendo no mundo literário e escrever as resenhas, ou fazia acordos com revistas especializadas para poder usar resenhas destas.

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Image caption 'Se você escreveu uma única resenha, está no ranking da Amazon', diz Trevor Pinch

Foi da estratégia de tentar consolidar a imagem de uma grande comunidade formada por pessoas com interesses comuns que vieram os primeiros convites para que consumidores escrevessem suas próprias resenhas.

A iniciativa deu certo e aos poucos a Amazon foi se dando conta de que poderia contar apenas com as resenhas de consumidores para promover os livros, o que Pinch chama no seu estudo de "uma revolução no comércio".

À medida que a Amazon ampliava a variedade de produtos - passando a vender quase de tudo - o sistema foi cuidadosamente desenvolvido pela empresa, "que introduziu novos mecanismos para monitorar, selecionar e criar um ranking para essas resenhas", através de notas das pelos consumidores.

"Se você escreveu uma única resenha, está no ranking da Amazon", diz Pinch, que estima que 9 milhões de pessoas já postaram algum comentário sobre algum produto da Amazon no mundo.

TOP 1000

O estudo da Cornell University traça um perfil do que a Amazon chama de os seus mil melhores consumidores resenhistas da Amazon, os TOP 1000 reviewers.

Apesar de estudos revelarem que mulheres leem mais do que homens, a pesquisa descobriu que 70% são homens.

Descobriu ainda que todos têm boa educação – 92% completaram a escola e 56% tem pós-graduação - e que a grande maioria está na faixa dos 30 aos 70 anos.

Uma fatia considerável deles, 11% é de aposentados. "É um belo hobby para quem tem tempo livre", diz Pinch.

Ele acrescenta que muitos no TOP 1000 veem a atividade de escrever resenhas como um hobby, "mas também como uma experiência social importante".

"Estar nesse ranking é um status, é uma forma de botar um pé dentro do mundo da literatura. Eles são cortejados por editoras e autores".

Leia mais: Resenhas falsas afetam varejo online e preocupam autoridades

Jabá

As empresas que vendem seus produtos na Amazon estão a par da importância dessas resenhas, pois sabem, como diz Pinch, "que as pessoas compram produtos baseados nelas".

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Image caption Trevoer Pinch: 'É um belo hobby para quem tem tempo livre'

Segundo o estudo, elas são persuasivas "porque permitem que o potencial comprador acesse as experiências e opiniões de outros que compraram o mesmo produto ou têm uma opinião sobre ele" e, o fato de essa opinião vir de pessoas comuns em vez de especialistas "também faz parte desse poder de persuasão".

Neste quadro, causa pouca surpresa a descoberta de que 85% dos Top 1000 recebem presentes da Amazon, de editoras de livros ou outras empresas. Mais de 50% dos entrevistados admitiram ter escrito resenhas de produtos recebidos de graça.

A partir do momento que um consumidor entra no ranking, ele é convidado para fazer parte de um programa chamado Amazon Vine.

Se aceitar, esse consumidor passa a receber uma lista da qual pode selecionar produtos que estaria interessado em resenhar. Ele escolhe e recebe os produtos – como por exemplo livros, CDs, chocolates e impressoras - de graça.

Sem entrar nos méritos da questão moral, Pinch alega que essa prática causa uma distorção no próprio ranking, pois "tecnicamente eles deixam de ser consumidores nesse caso, já que escrevem resenhas de produtos que receberam de graça".

Livros e escova de privadas

Seja como for, para entrar no ranking é preciso mostrar serviço. A maioria das resenhas são de livros, que em teorias, precisam ser lidos antes de comentados, mas, segundo Pinch, é comum que essas mesmas pessoas postem opiniões sobre "boné de beisebol, lâmpadas e até escova de privada". A pessoa que estava liderando o ranking na época do estudo, Harriet Klausner, tinha escrito 21.870 resenhas. O segundo colocado, 6.666, o terceiro, 4.562.

O resenhista na posição 500 postou 628 resenhas, e o último colocado no Top 1000 escreveu 52.

Um dos entrevistados conta no estudo que começou a receber presentes quando entrou no Top 800, e que as ofertas aumentaram quando entrou no Top 500. Quando chegou ao Top 150, "a média era de uma oferta por semana (sem contar as do programa Vine)".

"Quando cheguei ao Top 50, passei a receber várias ofertas por semana, a maioria de livros. Raramente aceitava as ofertas".

Manipulação

Pinch reitera que, a exemplo do que ocorre nos sites de viagens, a Amazon também não está imune às resenhas fraudulentas.

Em 2004, um problema técnico no site canadense da Amazon permitiu a divulgação de milhares de endereços reais de resenhistas.

Com isso, o New York Times constatou que vários autores tinham resenhado seus próprios livros na Amazon ou falado mal de obras de rivais.

Outro caso famoso foi o de conhecido historiador britânico Orlando Figes, que usou um nome falso para atacar livros de autores rivais enquanto cobria de elogios os seus próprios.

Inicialmente Figes negou veementemente o delito e chegou a dizer que sua mulher tinha postado os comentários, antes de admitir a fraude e pedir desculpas pelo ocorrido.

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