Ivan Lessa: Canção de outono árabe

– Lá foi outra, observou Nassim das alturas de Feruz, seu camelo.

– E mais outra, acrescentou Nassib, acelerando o passo de Abdel, para não ficar atrás do amigo e seu cavalo do deserto.

– Alá é grande e muitos são os seus mistérios. Quem somos nós para compreender isso tudo?

– Disseste a verdade, velho companheiro. Mas, se em nossa primavera, que no mundo passou a ser conhecida como Primavera Árabe, eu não fiz outra coisa a não ser comer areia e pingar colírio nos doces olhos do fiel Abdel, pergunto-me se estaremos vivendo o Outono Árabe?

– Só Alá o sabe e o bom rei Abdula. Louvados sejam ambos. Se assim quiserem, assim o será.

No alto da primeira duna, à esquerda de quem vai pegar o caminho de Al-Shariff, cidade orgulho nacional, eram observados por duas estáticas torres de petróleo.

Nassim foi o primeiro a dar graças, de acordo com os ensinamentos da sharia:

– Fomos poupados, Nassib. Nossas torresinhas lá continuam. Louvado seja o outono, se for mesmo a propalada estação e o milagre não mais que passageiro.

– Louvado, Nassim. Noto porém que ambas estão carregadas de folhas secas próprias aos países que não observam os preceitos islâmicos e só conhecem o frio e as abominações sexuais.

Ambos ligaram as torneirìnhas à altura de seus joelhos de suas respectivas torres, o que fez jorrar uns bons litros de ouro negro, assustando os camelos Feruz e Abdel, sempre a mastigar, porém inquietos com as inusitadas folhas que acompanharam toda a viagem, desde a cidade de onde vinham, a esplendorosa maravilha arquitetônica de Raz Frejat.

Assim constatado ficou que, apesar das instabilidades ora intrínsecas às estações, a vida prosseguiria, tal como Alá designara àquela região privilegiada do globo.

Ambos, Nassib e Nassim, remontaram os pacientes Feruz e Abdel e, em silêncio, onde só se ouvia o silvo fino do vento e o mastigar rumoroso dos camelos, prosseguiram viagem rumo a Raz Frejat.

As folhas mortas como que os observavam de longe, feito na canção de Prévert e Kosma, e logo, logo as pegadas dos dois amigos seriam apagadas pelo tempo que nada perdoa e a tudo leva.

Uma ou duas horas depois, num oásis, sob uma palmeira, acocorados fazendo seu lanche (o falecido camelo Rusmalá, honrada seja sua lembrança) enquanto os dois camelos, já quase amigos, pastavam algumas pedras menos duras, Nassim, a expressão grave e pensativa, assim se expressou para o inseparável amigo Nassib:

– Que tramas mais nosso magnífico soberano, Abdula, celebrizado para toda eternidade seja seu nome, terá urdido para provocar intempéries misteriosas iguais a este outono?

E prosseguiu perorando, ligando fatos a ideias e estas a fatos, para encontrar uma explicação razoável para as brutais transformações que seu consagrado país viria breve a sofrer em cerca de quatro Ramadãs:

– Mulher votando, mulher sendo eleita para o Conselho da Shura. Mais outros tantos outonos sauditas e estarão, que Alá se apiede de nós e não o permita, dirigindo carros, viajando sem permissão de um guardião, abrindo conta em banco, escolhendo suas próprias vestimentas, exibindo mais que as mãos e os olhos para outros humanos que não membros de sua família.

E se disse cansado e que precisava repousar e dormiu um par de horas inquietas, enquanto o amigo zelava. Ou estaria rezando?

Só Alá e o vento que varre os desertos sauditas e leva consigo as folhas do outono árabe o sabem.