Antigo reduto do tráfico, praça no Alemão abriga escolinha de vôlei

Image caption Elisângela com a filha Emily: oportunidades para as crianças da comunidade

Enquanto a filha se diverte na quadra de vôlei, a dona de casa Elisângela Dias da Silva, de 28 anos, assiste à aula de um banco do lado de fora, na praça onde em tempos passados evitava pisar.

Antes da ocupação do Complexo do Alemão por forças de segurança, em novembro de 2010, a Praça do Terço, próxima à entrada da favela Nova Brasília, era território do tráfico, com bandidos armados e venda de drogas ao ar livre.

Elisângela morava do lado da praça, mas evitava sair e não gostava de receber visitas. Quando a filha Emily nasceu, em 2004, ela e o marido resolveram sair do Alemão e ir morar em Itaipuaçu, a 50 quilômetros a leste da capital.

Ela não entra em detalhes sobre o crime que existia na praça. "Tudo que você pode imaginar, eu já escutei e já vi por aqui. A gente não queria isso para ela".

A família se animou a voltar em janeiro, depois de notícias sobre a pacificação. E Elisângela encontrou a praça mudada.

Cinema e vôlei

O primeiro cinema da comunidade foi inaugurado ali no Natal passado, um centro de inclusão digital está sendo construído pela prefeitura e, neste mês, a quadra esportiva passou a abrigar uma unidade da Escola de Vôlei Bernardinho (EVB).

O projeto do técnico da seleção masculina de vôlei, Bernardo Rocha de Rezende, dá aulas gratuitas para crianças de 7 a 13 anos da comunidade.

Elisângela correu para matricular a filha no curso, que, sinal da demanda reprimida, já tem uma lista de espera de 400 alunos, segundo o presidente da Associação de Moradores da Nova Brasília, Alcides de Almeida.

"A escola é uma bênção, está todo mundo amando. O problema é que tem uma fila muito grande de crianças querendo entrar", diz Almeida, que mal termina a frase e é abordado por um menino: "Tio, ainda tem vaga aí no vôlei?"

Leria mais: Projeto social de Bernardinho leva vôlei para mais cinco favelas do Rio

Susto após inauguração

Na fase inicial, a escola oferece aulas para 150 crianças, com turmas de manhã e à tarde. A Nova Brasília tem mais de 30 mil moradores, segundo Almeida. Os planos são de expandir a oferta para 300, diz Bernardinho.

"Dentro de uma comunidade tão grande, é um número que obviamente não vai atingir a todas as crianças. Mas estamos trabalhando e aos poucos tentando atender a um maior número de jovens", afirma o técnico.

Até o fim do ano, Bernardinho vai levar unidades da EVB a outras cinco favelas com Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs).

O projeto social tem parceria com a Secretaria de Segurança Pública, responsável pelas UPPs.

Image caption O estagiário Wallace Leal lembra que a quadra antes abrigava baile funk

"Com o processo de pacificação em várias comunidades, vislumbramos a possibilidade de entrar com essas ações", diz o técnico.

Porém, menos de uma semana depois da inauguração no Alemão, veio o susto. Na véspera do feriado de 7 de setembro, traficantes abriram fogo em direção à favela, atirando de morros ao redor, no que foi visto como uma tentativa de recuperar o território perdido. Ninguém ficou ferido, mas a segurança precisou ser reforçada.

"Talvez nós tenhamos que passar por algumas crises como esta, porque certamente aqueles que dominavam aquela área não vão entregar assim de mãos beijadas", diz Bernardinho. "Mas estamos alinhados com a Secretaria de Segurança e com a Força de Pacificação para dar a nossa contribuição e mostrar aos jovens da comunidade que existe um outro caminho."

Do baile funk ao vôlei

Na entrada da movimentada rua de comércio que dá acesso à comunidade e desemboca na praça, cinco soldados estão a postos de fardas, fuzis e o boné azul turquesa com os dizeres "Força de Pacificação".

Enquanto as UPPs não são instaladas no Alemão, até meados de 2012, cerca de 1.600 homens do Exército fazem o monitoramento das favelas do complexo.

Mas a presença dos militares não é a uma mudança na paisagem do local. "A quadra era totalmente abandonada, mal se jogava um futebol aqui. O telhado era cheio de tiro", diz Wallace Jardim Leal, de 26 anos, lembrando que "antigamente" era ali também que aconteciam os bailes funk.

Leal nasceu e cresceu na Nova Brasília, estuda educação física e foi selecionado como estagiário da EVB no Alemão. "Sempre gostei de esporte. Mas quando era criança, as oportunidades aqui eram quase zero."

O professor Augusto dos Santos diz que chegou na escola achando que encontraria crianças mais rebeldes e indisciplinadas nas aulas.

"Mas, pelo contrário, sentimos que elas são muito carentes de carinho e atenção", diz Santos, que tem 42 anos e é da favela Tavares Bastos, onde foi instalado o primeiro projeto social do Bernardinho, em 2007.

Quando a compara com outras crianças, Elisângela acredita ter conseguido preservar a ingenuidade da filha levando-a para crescer longe do crime. Hoje, faz questão de levá-la para todas as aulas que aparecem – além do vôlei, Emilly faz capoeira, judô e natação, os dois últimos na Vila Olímpica, projeto da prefeitura.

"Na minha época não tinha essas coisas todas que tem para criança hoje em dia. Quando ela pede para entrar numa aula eu levo, porque nunca tive essas oportunidades."

Na saída da aula, Emilly conta que "gosta de rock" e "adora o vôlei". Ela veste o uniforme da escolinha, tênis e meias cor-de-rosa. Tem as mãos feitas, com florzinhas pintadas sobre o esmalte café. "Eu quero ser jogadora de vôlei", responde sobre seus planos para o futuro, abraçando a mãe.

Notícias relacionadas