Ajuste econômico rigoroso pauta ‘indignação’ dos portugueses

Protesto em Lisboa. AFP Direito de imagem AFP
Image caption Com 13,2% de desemprego, Portugal é um dos países mais afetados pela crise na Europa

Afetados por rigorosas medidas de ajuste anunciadas pelo governo nos últimos dias, milhares de portugueses aderiram neste sábado aos protestos contra a "ganância corporativa", parte de um movimento que se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos.

A maior manifestação foi em Lisboa. Segundo os organizadores, foram cem mil pessoas. A imprensa portuguesa cita 30 mil. Os manifestantes fizeram uma passeata por mais de dois quilômetros que terminou na frente do Parlamento português.

Ao longo do caminho, placas de venda de imóveis e muitas lojas fechadas são alguns dos sinais mais visíveis da crise. O desemprego já atinge 13,2% dos portugueses.

No Porto, a polícia calculou em 10 mil os participantes do protesto (20 mil, segundo os organizadores).

Houve manifestações menores em Coimbra, Braga, Évora, Faro, Angra do Heroísmo e Funchal.

Durante a caminhada, eram gritadas palavras de ordem contra a União Europeia e o FMI, que coordenam o programa de resgate da dívida portuguesa.

O governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho também foi criticado por disponibilizar dinheiro para os bancos no mesmo momento em que anuncia medidas de rigor.

Na última quinta-feira, o governo anunciou que todos os funcionários públicos deixarão de receber o décimo quarto salário. Os que ganham mais de mil euros mensais também deixarão de receber o décimo terceiro.

Os manifestantes também lembraram a situação crítica da Irlanda, da Espanha e da Grécia, alguns dos países mais afetados pela crise da dívida que se espalha pela zona do euro.

No meio da multidão, havia dois cartazes feitos por brasileiros contra a corrupção no Brasil.

Nova manifestação

Uma assembleia foi organizada nas escadarias do Parlamento e uma nova manifestação foi convocada para o próximo dia 26 de novembro.

Tiago Gillto, do movimento Precários Inflexíveis, disse que "a manifestação reage ao caminho da precariedade (do trabalho)".

"O projeto do atual governo é transformar a precariedade numa regra", disse.

Dentro do programa de resgate da economia portuguesa, sob a justificativa de que é necessário aumentar a competitividade da economia do país, o governo pretende facilitar demissões e reduzir as indenizações por tempo de serviço.

O governo também anunciou o o aumento do horário de trabalho na iniciativa privada em meia hora diária – passando das 40 horas semanais para 42,5.

Também houve corte nas aposentadorias do setor público, de 14 para 12 pagamentos anuais.

Movimento mundial

Manifestantes tomaram as ruas de várias cidades ao redor do mundo, neste sábado, para protestar contra a "ganância corporativa" e os cortes orçamentários realizados por distintos governos.

Organizadores anunciaram marchas em até 951 cidades de 82 países, em todos os continentes, inspiradas no movimento Ocupe Wall Street, iniciado em Nova York (EUA).

Em Roma, multidão se aglomerou ao redor do Coliseu. Houve confrontos, carros incendiados e agências bancárias destruídas. A polícia chegou a lançar gás lacrimogêneo contra os manifestantes.

Em Frankfurt, na Alemanha, cerca de 25 mil pessoas saíram às ruas para se manifestar diante do Banco Central Europeu. Os espanhóis também saíram às ruas de Madri. Houve ainda protestos em Londres e Nova York.

Os protestos ocorreram no dia da reunião dos ministros das Finanças do G20, na França. Os países do grupo, entre os quais os emergentes, prometeram dotar o Fundo Monetário Internacional (FMI) de "recursos adequados" para ajudar a Europa a solucionar a crise das dívidas soberanas, que ameaça a economia mundial.

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