Análise: Como será a Espanha sem o ETA?

Imagem de arquivo de um comunicado feito pelo ETA em 2006 (AFP) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Presença do ETA na esfera pública é cada vez menor

Uma conferência no País Basco está sendo vista por muitos analistas na Espanha como um prenúncio do fim do grupo separatista basco ETA.

Desde 2010, o grupo já vinha anunciando a suspensão de seus ataques. Em janeiro de 2011, o ETA declarou cessar-fogo e no dia 1º de outubro, o grupo Ekin, braço político do grupo, anunciou sua dissolução.

Na Espanha, já se afirma que é uma questão de semanas para o fim do ETA.

O cerco da polícia espanhola a membros do grupo, as vitórias eleitorais da esquerda independentista do País Basco, entre outros fatores, já começam a apontar na direção de uma Espanha sem a organização.

O grupo, cujo nome Euskadi Ta Azkatasuna pode ser traduzido como Pátria Basca e Liberdade, começou suas atividades na década de 60, como um movimento de resistência estudantil que se opunha radicalmente à ditadura militar do general Francisco Franco. A reivindicação do grupo era a independência dos territórios bascos da Espanha e França.

O grupo realizou uma série de ataques extremistas desde o início de suas atividades, que deixaram quase mil mortos.

"Uma Espanha sem o ETA seria uma Espanha sem medo, que conquistou a paz, onde a democracia foi mais forte que as armas", disse à BBC José María Román Portas, presidente da Fundação Cidadania e Valores.

A perspectiva de paz já mudou alguns aspectos do País Basco, tanto no setor empresarial, que já não sofre as extorsões que costumava sofrer no passado, como no setor de turismo, que bateu recorde no último ano registrando um aumento de 12% no número de visitantes, mais de 2,3 milhões de pessoas.

Eleições e consequências

Enquanto isso, o assunto provoca trocas de acusações entre os principais partidos políticos na Espanha, de olho nas próximas eleições gerais, marcadas para 20 de novembro.

O ex-presidente espanhol José Maria Aznar, do Partido Popular (de tendência conservadora), acusou o governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero, de "implorar" pelo anúncio do fim do grupo armado para poder reverter as tendências nas pesquisas eleitorais, que apontam a direita como favorita no pleito, principalmente devido à crise econômica que a Espanha atravessa.

Mas, para o presidente da Fundação Cidadania e Valores, o fim do ETA afetaria pouco as eleições.

"A notícia do fim do ETA é importante, mas não mudaria muito as coisas, não afetaria as eleições. O ETA não comete atentados há tempos e o terrorismo deixou de ser a primeira preocupação", disse.

Mas, para o analista político Jacobo Rivero, o fim do ETA traria uma série de consequências, principalmente para a esquerda basca, que vivia em conflito sobre o endosso ou não do uso de violência na luta independentista.

"Frente ao desaparecimento do ETA, haveria uma mudança no paradigma de muitas políticas, não apenas nos discursos, mas também nas políticas de segurança, na justificação de medidas (de segurança)."

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Image caption Para analistas, a tensão territoral pode continuar mesmo depois do fim do ETA

Para Rivero, "com o desaparecimento do ETA, as suspeitas de proximidade entre a esquerda basca e o ETA, ficariam inválidas" e a direita espanhola não poderia mais usar este argumento.

Outra consequência do fim do grupo, seriam as possíveis vitórias eleitorais do Bildu, a coalizão independentista de esquerda que surgiu depois que o Batasuna, considerado um dos braços políticos do ETA, foi considerado ilegal.

Nas últimas eleições municipais no país, o Bildu foi um dos partidos ganhadores.

Separatismo

Para José María Román Portas, no entanto, a tensão não se dissipará da noite para o dia no País Basco.

"O discurso separatista do ETA passaria a fazer parte da via democrática, mas sem diminuir a tensão", disse.

Jacobo Rivero afirma que a dissolução do ETA "normalizaria a luta da esquerda basca a favor da independência através dos canais democráticos".

A região do País Basco é a mais autônoma da Espanha, com seu próprio Parlamento, força policial, controle do setor de educação e com a coleta de seus próprios impostos. No entanto, o ETA e seus partidários continuaram pressionando pela independência total.

Apesar da perspectiva do início de uma luta de esquerda pelas vias democráticas, muitos não querem a simples dissolução do ETA sem maiores consequências. É o caso da Associação das Vítimas do Terrorismo que afirma que "não é admissível" que o grupo separatista acabe como "se nada tivesse acontecido".

"Foram 50 anos de horror, 858 vítimas mortas e suas famílias devastadas. Reivindicamos um final com vencedores e vencidos, onde as vítimas, a sociedade espanhola e o estado de direito sejam os vencedores e os terroristas, os vencidos", afirmou Ángeles Pedraza, presidente da associação.

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