Lucas Mendes: Ocupei a Wall Street

Atualizado em  27 de outubro, 2011 - 08:43 (Brasília) 10:43 GMT

Cheguei, vi, ocupei e perdi. Nunca foi tão fácil. Não é uma pândega, nem uma revolução. Não sei ainda qual é a do movimento "Occupy Wall Street", mas é mais organizado e limpo do que algumas empresas em que trabalhei. Um colégio militar sem sargentos, capitães nem generais.

Uma turista que entrou na praça comigo achou que parecia um parque de diversões. Não parece.

Zuccoti Park, uma praça pequena, um quarto de um quarteirão, é um acampamento com dezenas de barracas azuis, com canteiros, árvores e obras de arte. Difícil dizer se há mais barracas ou gente na praça ou se há gente dentro das barracas, a maioria delas individuais.

Meu primeiro informante, David, na mesa de entrada, não sabia informar quantas pessoas estavam na praça, dentro ou fora das barracas. Quinhentos? Mil?

Ontem foi o segundo dia dele na praça. Ocupava uma praça em Lafayette, Arkansas, mas a policia desocupou a praça e ele veio para cá com cinco amigos. Aposentado, com muito cabelo e poucos dentes, está animado com a cidade e o movimento.

Na frente da mesa dele há um sinal "nos pergunte" e um poster com os eventos do dia. De 9 da manhã às 10 da noite há reuniões e debates sobre diferentes temas, marchas e outras atividades.

Nem um minuto de vadiagem ou sacanagem. Às 3 da tarde iam protestar na frente de uma das maiores seguradoras de saúde do país. Marcharia com eles se não quisesse ocupar a praça. Meu plano de saúde custa uma obscenidade.

David me mandou para outra barraca de informações e quando disse que era da BBC Brasil, o novo informador sugeriu que eu fosse à barraca de informações em espanhol.

"No Brasil, nós falamos português".

"Sinto muito, ainda não temos o departamento em português."

A barraca central não é grande, mas era a mais interessante. Umas quarenta pessoas em pé ou sentadas no chão ouvindo oradores. A arenga do orador é interminável e um dos organizadores diz que ele está repetitivo.

"Há ou não liberdade de expressão nesta praça?", protesta o orador.

"Há, mas você repete o mesmo argumento."

"Você é quem manda?"

"Ninguém manda."

Um ocupador que tinha um caderno de anotações na mão chama o orador seguinte. Há 28 na lista dele.

Finalmente entendo que o tema do debate é se devem ou não "modificar" o movimento, que é criticado por ter excessos de objetivos, falta de definição e liderança.

O orador seguinte é um negro de uns quarenta anos, articulado, com um terno impecável. Ele diz ao ocupantes que o movimento é importantíssimo, mas que alguém deve assumir a liderança e o controle. Sugere que criem um logotipo, botões, camisetas e vendam ações do movimento por US$ 10.

Esta parte das ações confunde a maioria dos ocupantes.

"Vender ação de que para quem? Somos contra partidos vendidos, movimentos organizados e este tipo de empresa que você sugere. Já temos logo e botões, mas não queremos lucros nem ser empresa."

Há uma mesa "Free Empathy", responsável pela harmonia dos debates. Quando chegam ao ponto do impasse, grosseira, a mesa oferece um mediador.

Depois de conversar com uma dúzia de ocupantes, você ouve opiniões de anarquistas e radicais que querem o fim do sistema politico e do capitalismo, mas a maioria que conversou comigo quer uma sociedade mais justa e um governo menos manipulado pelas corporações.

O orador seguinte ofereceu um cenário prático. "É essencial atrair mais gente para o movimento". Como, ele não sabia, mas "é melhor ter mais gente debaixo da barraca mijando para fora do que mais gente mijando dentro da barraca". E daí?

Alguém comparou a praça Zuccotti com a praça de Atenas, 500 anos anos de Cristo e uma população de 40 mil habitantes. E daí?

De tudo que vi, ouvi e li sobre a ocupação, acho que o colunista Nicholas Kristoff, do New York Times, chega mais perto da verdade. Ele cobriu os protestos na Praça Tahir, no Egito, e no Zuccotti Park, em Manhattan.

Viu grandes diferenças e semelhanças. Os egípcios queriam liberdade, empregos e uma dúzia de direitos. Os ocupadores da Wall Street também querem tudo, mas quando destilou o protesto, chegou à desigualdade econômica.

Hoje, há mais igualdade no Egito e na Tunísia do que nos Estados Unidos. Os 400 americanos mais ricos tem mais do que 150 milhões das classes menos afluentes.

1% tem mais riqueza do que 90% do país. Durante o governo Bush, 65% dos ganhos beneficiaram 1% da população. A História mostra que sociedades economicamente desiguais são as menos prósperas.

Minha primeira cobertura de protesto foi em Chicago. Sexo, drogas, rock'n'roll, gás lacrimogênio e pancadaria. Gerou atentados terroristas e a vitória de Richard Nixon.

Pelo que você encontra na praça, todos os caminhos são possíveis, mas não há sinais de drogas, sexo nem violência, e a música é medíocre. Mas será que vai gerar um Nixon ou um Ronald Reagan?

Na saída do parque, encontro Michael Wright, um empreendedor. Negro, vende camisetas com diferentes frases. Uma delas diz "Occupy Wall Street" e custa US$ 20.

Michael não tem conexões com o protesto. Nem contra nem a favor. Quer os dólares.

"20 por uma camiseta anticapitalista? Você devia cobrar 2."

"Carrego estas caixas nas costas lá do Bronx. Você quer pagar quanto?"

"Dou 10. Tamanho G."

Não tinha. Acabei saindo com uma de manga comprida, com capuz, por US$ 40 e uma tamanho M, de brinde.

Comigo a Wall Street venceu.

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