Khadafi 'morreu furioso e decepcionado', diz aliado

Atualizado em  31 de outubro, 2011 - 18:44 (Brasília) 20:44 GMT
Video da captura de Khadafi

Khadafi disse preferir morrer nas mãos dos líbios, segundo um de seus homens de confiança

A devastação está praticamente por toda parte em Misrata. Os únicos sinais de vida por aqui vêm do recém-batizado Museu de Misrata, onde armas confiscadas de forças leais a Muanmar Khadafi e outros troféus da guerra estão expostos.

O mais precioso troféu da cidade, no entanto, permanece longe dos olhos do público. Mansour Dhao Ibrahim era um dos homens mais procurados pelas forças do Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia.

Hoje preso, ele é tido como responsável por assassinatos, estupros e tortura de oponentes de Khadafi.

Acredita-se que ele saiba onde estão várias valas comuns contendo restos mortais de combatentes.

Homem de confiança de Khadafi

Quando o encontramos, estava sentado no chão, de pernas cruzadas e descalço, com uma cópia do Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos) à sua frente e um colchão levemente manchado de sangue ao seu lado.

Homem de confiança de Khadafi, Dhao foi capturado junto ao ex-líder, em Sirte. Ele oferece informações preciosas sobre o estado emocional do coronel nos últimos dias de sua vida.

"Khadafi estava nervoso. Ele não conseguia fazer ligações ou se comunicar com o mundo lá fora. Tínhamos pouca comida e água. Condições de saneamento eram ruins", ele disse.

"Ele andava para lá e para cá em uma sala pequena, escrevendo em um caderno. Sabíamos que estava tudo terminado. Khadafi disse: 'Sou procurado pelo Tribunal Penal Internacional. Nenhum país vai me aceitar. Prefiro morrer nas mãos dos líbios'"

Missão Suicida

Dhao disse que Khadafi tomou a decisão de ir para o local onde nasceu, no vale de Jarref, próximo de onde estavam.

Perguntei se era uma missão suicida.

"Era uma missão suicida", disse Mansour Dhao."Sentimos que ele queria morrer no lugar onde nasceu. Ele não disse isso explicitamente, mas foi com o propósito de morrer".

Mas o plano de Khadafi não funcionou. Seu comboio foi atacado pelas forças da Otan.

O homem que um dia foi temido por tantos correu para se esconder em um cano de água. Ali foi encontrado e capturado.

Com ele estava seu motorista, Huneish Nasr.

Quando falei com Nasr na prisão, ele vestia a mesma camisa ensanguentada que vestia naquele dia, quando foi ferido.

Ele disse: "Khadafi saiu do cano. Fiquei lá dentro. Não conseguia sair. Havia uma multidão tão grande de combatentes."

"Khadafi não tinha para onde ir. Era um homem no meio de tantos e os combatentes gritavam: 'Khadafi, Khadafi, Khadafi.'"

Huneish Nasr estava nervoso e claramente preocupado com a presença dos captores, dois dos quais permaneceram conosco durante a entrevista, com os braços cruzados.

Seus olhos negros percorriam, rápidos, todos os cantos da sala. Ele insistiu várias vezes em dizer que os combatentes que capturaram Khadafi não atiraram quando o encontraram.

'Furioso e decepcionado'

O motorista disse que Khadafi não pareceu surpreso ao vê-los se aproximar, parecia conformado.

Mansour Dhao, no entanto, acredita que Khadafi morreu furioso e decepcionado.

"Ele achava que seu povo deveria amá-lo até o fim. Sentia que havia feito tantas coisas boas para (o povo) e para a Líbia. Ele também se sentia traído por homens que pareciam ser seus amigos, como Tony Blair e Silvio Berlusconi", disse.

Quando perguntei sobre o terror e as torturas, os homens pareceram menos dispostos a falar. Temem por suas vidas. Se for declarado culpado na Líbia, Mansour Dhao pode ser enforcado.

Ainda assim, embora negando qualquer responsabilidade, Dhao falou sobre crimes do governo Khadafi que são conhecidos mas raramente confirmados por uma pessoa leal a ele.

Lockerbie

Ele disse que oponentes do coronel Khadafi foram torturados, que o ex-líder financiava abertamente o terrorismo internacional e que o atentado à bomba em Lockerbie foi planejado pela segurança externa de Khadafi.

Ele disse que um dos momentos mais terríveis de Khadafi foi a ordem para que cerca de 1.200 pessoas, a maioria prisioneiros políticos na prisão de Abu Salim, em Trípoli, fossem assassinados em 1996.

O destino de Mansour Dhao e Huneish Nasr é incerto.

Será que os combatentes de Misrata vão entregar seus prisioneiros, junto com as armas e seu recém-adquirido poder, às novas autoridades de transição na Líbia?

Ou poderão as rivalidades regionais prejudicar o futuro da Líbia, impedindo que os problemas do passado sejam resolvidos?

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