Berlusconi descarta candidatura em caso de eleições antecipadas

Berlusconi. AFP Direito de imagem AFP
Image caption Primeiro-ministro prevê antecipação de eleições; custo da dívida italiana bate recorde

O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, afrmou nesta quarta-feira - um dia após ter dito que renunciará após a eventual aprovação de um pacote econômico - que não apresentará sua candidatura caso o país antecipe as eleições.

"Eu renunciarei assim que a lei for aprovada, e, como eu acredito que não há outra maioria [parlamentar] possível, eu prevejo a realização de eleições no início de fevereiro, e eu não serei um candidato nelas", disse o premiê.

Nessa terça-feira, em reunião com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, o primeiro-ministro afirmou que renunciará assim que o Parlamento aprovar o pacote de austeridade proposto pelo governo para enfrentar a crise econômica.

Embora o partido de Berlusconi queira novas eleições, a oposição deseja a formação de um governo de união nacional.

No entanto, o primeiro-ministro deve esperar a aprovação do pacote para somente depois dar início às consultas aos grupos políticos italianos sobre o futuro do país.

O editor para Europa da BBC Gavin Hewitt diz que dificuldades políticas claramente estão à vista na Itália.

Juros

O anúncio de Berlusconi não adiantou para evitar a disparada nos custos da dívida italiana, cujos títulos de dez anos já estão pagando mais de 7% de juros anuais, patamar considerado limite para evitar um calote do governo.

Este é o maior nível do custo de endividamento da Itália desde a criação do euro, em 1999.

Enquanto isso, uma delegação da União Europeia (UE) chega a Roma nesta quarta-feira para observar as medidas tomadas pela Itália para evitar o agravamento da crise na zona do euro.

As autoridades querem saber, entre uma longa lista de itens, como o governo planeja vender estatais, como vai reduzir sua enorme dívida e como pretende cortar o déficit previdenciário.

O Comissário da União Europeia para Assuntos Econômicos, Olli Rehn, descreveu a situação italiana como "muito preocupante".

Votação

A renúncia já era esperada na manhã de terça-feira, quando o governo enfrentaria uma votação-chave no Parlamento.

Berlusconi, no entanto, conseguiu aprovar os gastos do orçamento do Estado de 2010, ganhando a confiança do Parlamento para ainda permanecer no cargo. A derrota forçaria sua demissão imediata.

A vitória do governo ocorreu com 308 votos a favor e uma abstenção, depois que a oposição retirou-se da votação. No entanto, o número de votos em favor de Berlusconi, comparado com a quantidade de opositores ausentes no Parlamento, indica que o premiê perdeu sua maioria no Parlamento.

O pacote de austeridade deve ser aprovado nas próximas semanas.

A pressão sobre Berlusconi se soma à inquietação dos mercados financeiros com a enorme dívida pública do país.

Nesta terça-feira, Umberto Bossi, líder da Liga do Norte, um dos partidos da coalizão de governo de Berlusconi, se juntou a outros políticos da Itália pedindo a renúncia do primeiro-ministro.

Dívida astronômica

Teme-se que as dúvidas sobre a capacidade italiana de honrar os compromissos de sua dívida astronômica gerem uma crise política como a que está abalando a Grécia.

No entanto, analistas veem a situação com maior preocupação do que episódios passados da crise europeia. Isso porque a Itália é a terceira maior economia da zona do euro.

Segundo Gavin Hewitt, a crise italiana pode ser explicada de uma maneira simples: os mercados duvidam que Berlusconi tenha credibilidade para implementar as reformas que reduzirão a dívida do país e gerarão crescimento.

Direito de imagem AFP
Image caption Líderes políticos italianos já pediam a renúncia do primeiro-ministro

Sem isso, investidores consideram que o país está se encaminhando para um cenário em que os custos de tomar empréstimo se tornarão insustentáveis e em que o país precisará de um pacote de resgate.

O problema, para Hewitt, é que a economia italiana é tão grande – em comparação com Grécia, Irlanda ou Portugal – que a zona do euro não terá capacidade de agir.

Fortuna e poder

Assim, com os indicadores econômicos jogando claramente contra o país, aumentaram as chances de a crise econômica acabar com a carreira política de Berlusconi – o protagonista da política italiana nas últimas duas décadas.

Após três mandatos, ele é o primeiro-ministro há mais tempo no poder na Itália do pós-guerra, assim como um dos homens mais ricos do país.

O premiê de 75 anos e sua família acumularam uma fortuna estimada pela revista Forbes em US$ 9 bilhões (R$ 14,9 bilhões).

No entanto, desde que Berlusconi voltou ao poder, em 2008, a economia está em crescente tensão, com uma dívida nacional de 1,9 trilhões de euros (R$ 4,5 trilhões).

Seu governo foi considerado lento em implementar medidas de austeridade em resposta à crise e seu envolvimento em escândalos sexuais e de corrupção foram vistos como distrações inoportunas em um momento crítico.

Empreendedor

Direito de imagem Reuters
Image caption Ativistas ucranianas protestam contra Berlusconi, no centro de Roma

O talento empresarial de Berlusconi - evidente em um império que se estende pelas áreas de mídia, publicidade, seguros, alimentação e construção - se tornou prova suficiente para muitos italianos de que ele seria apto para governar também o país.

O premiê também é dono de um dos clubes de futebol mais bem sucedidos da Itália, o Milan, e sua empresa de investimentos controla três das maiores redes de TV privadas do país. Como primeiro-ministro, ele tem ainda o poder de nomear os chefes dos três canais públicos da rede RAI.

Durante seu governo, Berlusconi conseguiu driblar uma série de escândalos sexuais, políticos e de corrupção, mas o fluxo constante de acusações contra ele fez com que muitos aliados e amigos se afastassem.

Sua segunda mulher, Veronica Lario, pediu divórcio em maio de 2009 e disse a um jornal que ela não poderia ficar com um homem que "se envolve com menores".

Em novembro de 2010, seu ex-aliado político Gianfranco Fini pediu que ele renunciasse, quando surgiram revelações sobre uma dançarina marroquina adolescente chamada Ruby.

Batalhas legais

Berlusconi, nascido em Milão, sempre afirmou que estava sendo perseguido pelas autoridades da cidade.

Ele foi acusado de desvio de verbas, de fraude fiscal e contábil e de tentativa de subornar um juiz, mas negou ter cometido qualquer crime e nunca foi condenado de forma definitiva.

Vários destes casos foram a julgamento. Em alguns deles, Berlusconi foi absolvido e em outros, foi condenado, mas o veredicto foi derrubado com recursos. Outras vezes, limitações legais fizeram com que os casos fossem abandonados.

Em 2009, o premiê estimou que em 20 anos ele havia comparecido 2,5 mil vezes a cortes, em 106 julgamentos, com um custo legal de 200 milhões de euros (cerca de R$ 450 milhões).

Seu governo aprovou reformas que alteravam a definição legal de fraude, mas parte de uma lei de 2010 que dava a ele e a outros ministros imunidade temporária foi derrubada pela Corte Constitucional da Itália, que deixou a decisão final a cargo dos juízes.

Nascido no dia 29 de setembro de 1936, Silvio Berlusconi começou sua carreira vendendo aspiradores de pó, e trabalhou como cantor em clubes e cruzeiros.

Notícias relacionadas