Tráfico ainda é desafio, mesmo com UPPs e prisão de Nem, dizem analistas

Policiais no morro da Mangueira. Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Especialistas preveem redução do controle territorial do tráfico, mas consideram situação complexa

O combate ao tráfico de drogas continua sendo um grande desafio para as forças de segurança do Rio, mesmo com a implantação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e com a prisão de Antônio Bonfim Lopes, o Nem, suspeito de chefiar o tráfico na Rocinha, segundo afirmam especialistas entrevistados pela BBC Brasil.

Um dos traficantes mais procurados do Rio, Nem foi preso na madrugada desta quinta-feira por policiais militares na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul da cidade. Segundo a PM, ele tentava fugir escondido no porta-malas de um carro. Mais dois homens foram detidos junto do traficante.

Segundo o sociólogo e professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) José Augusto Rodrigues, a captura de Nem tem um aspecto simbólico, por levar à prisão uma figura central do tráfico, com poder de comando e liderança, e outro prático, por produzir desorganização e fragmentar as atividades de sua quadrilha.

Ele acredita que, com a ação das UPPs, a tendência é que o tráfico do Rio assuma um formato comum ao de outras partes do mundo, "uma coisa mais capilar, mais disseminada em pequenos grupos, que agem escondidos, normalmente usando armas curtas, com uma capacidade de dano menor e sem poder de controle (territorial)".

No entanto, ele acredita que o tráfico ainda é uma operação complexa demais para ser desarticulada "a médio prazo", e que o volume de dinheiro movimentado pela venda de drogas continuará sendo muito grande, mesmo se essas organizações perderem controle territorial e poder de fogo.

"O tráfico é um problema com uma dimensão muito grande. É ingênuo imaginar que (a prisão de Nem) seria uma bala de prata para resolver essa questão", disse Rodrigues à BBC Brasil.

Rocinha

Já o sociólogo e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj Ignácio Cano diz que a expectativa de instalação de uma UPP na Rocinha traz a oportunidade de, caso a pacificação ocorra rapidamente, impedir a reestruturação do tráfico, retirando dele o controle territorial sobre a comunidade.

O sociólogo considera a Rocinha emblemática para o projeto das UPPs, por ser uma área muito grande e representativa do tráfico no Rio, embora seja menos complexa geograficamente que o complexo do Alemão, ocupado pelas forças de segurança em novembro de 2010.

Cano diz, entretanto, que o projeto das UPPs ainda está em um estágio inicial, com poucas unidades instaladas, se for levado em conta o grande número de comunidades que ainda estão sob controle territorial dos traficantes, das milícias e dos grupos de extermínio.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, afirmou nesta quinta-feira à TV Globo que a ocupação da Rocinha será concluída até o próximo domingo.

Milícias

Sobre as milícias, José Augusto Rodrigues diz que o desafio imposto por esses grupos às forças de segurança é maior que o do tráfico, por estarem, segundo ele, em um processo de expansão.

"Ao contrário do tráfico, as milícias possuem uma estrutura nitidamente mafiosa, que vincula crime, poder e polícia de forma preocupante", diz o professor da Uerj. "Elas ameaçam a segurança pública e, muito além disso, a própria vigência plena da democracia."

Já Ignácio Cano considera a atuação das milícias nas comunidades cariocas um desafio grande, mas não o único. Para ele, o problema do tráfico ainda é enorme, e ainda não está resolvido.

"Na verdade, o problema é um só, que é o controle territorial imposto por grupos armados criminosos, como traficantes, milícias e grupos de extermínio", afirma o sociólogo. "É preciso liberar as pessoas desse controle tirânico"

Uso da inteligência

Os especialistas concordam que a operação que resultou na prisão de Nem é um exemplo positivo de mudança na postura da polícia fluminense para lidar com o tráfico, evitando confrontos violentos que levam risco às comunidades, e priorizando ações de investigação e inteligência.

Rodrigues lembra o fato de que a operação que resultou na morte do cinegrafista Gelson Domingos, no último domingo, na favela de Antares (zona oeste carioca), ocorreu em um dia e horário no qual a circulação de moradores era menor, refletindo uma política de reduzir os danos a civis.

Por sua vez, Cano vê atualmente a convivência entre dois modelos de operação policial: um "tradicional", de caráter militar, que prioriza o maior número de baixas do inimigo (modelo este, segundo o sociólogo, ainda dominante), e outro que busca minimizar o número de mortes, como o que levou à prisão de Nem.

Notícias relacionadas