Tensão pré-ocupação não afasta turistas estrangeiros das favelas

Turistas durante tour de favela neste sábado (foto: Paulo Cabral / BBC Brasil)
Image caption Turistas estrangeiros visitaram favela próxima, mas não puderam entrar na Rocinha

O guia Everaldo Costa avisou em inglês assim que entrou na van: “Hoje vocês vão conhecer uma parte diferente de nossa cidade que normalmente só aparece na mídia quando a notícia é ruim, como agora. Em uma das favelas que vamos visitar, a Rocinha, não dá para entrar de carro por conta da grande operação policial sendo preparada.”

Não é o que normalmente se ouve de um guia turístico, mas os sete passageiros – duas amigas suecas, um casal de holandeses, um francês, uma australiana e uma mulher de Trinidad e Tobago – não se assustaram. Eles já sabiam da “grande operação policial” mas decidiram não mudar os planos de visitar uma favela carioca.

“Nos disseram que a situação estava ainda tranquila e que não havia perigo. Não estou com medo”, comentou a viajante sueca Gunilla Odmark.

Cerca de 3 mil turistas - quase todos estrangeiros - visitam a Rocinha todos os meses pagando de R$ 50 a R$ 80 por um passeio de três horas.

O tour inclui transporte morro acima, caminhada pela estreitas vielas e uma visita à laje de uma casa, de onde o turista vê no primeiro plano as milhares de casas da comunidade, emoldurando, ao fundo os prédios de alto padrão do bairro de São Conrado.

“Mas desde a sexta-feira estamos operando um tour com restrições: entramos na favela da Vila da Canoa, mas levamos os turistas só até a parte de baixo da Rocinha,” diz o dono da FavelaTour, Marcelo Armstrong, um dos primeiros a operar esse tipo de passeio na cidade.

“Neste domingo nem vamos fazer passeio e na segunda-feira também não. Mas acho que até terça vai estar tudo normal.”

Armostrong diz que não sentiu queda na procura pelos passeios por conta do noticiário em torno da Rocinha. O empresário diz acredita que de modo geral o processo de pacificação será positivo para o turismo nas favelas.

“A pacificação vai afastar aquele turista que já vai para a favela porque quer adrelina, ver armas e traficantes. Mas esse não é um turista que nos interessa.”

Momento chave

Image caption A Rocinha é a última grande favela da Zona Sul do Rio a receber uma UPP

A antropóloga da Fundação Getúlio Vargas Mariana Cavalcanti diz que a ocupação da Rocinha é um momento chave para o projeto de Unidades de Polícia Pacificadora do Governo do Estado do Rio.

“A Rocinha é a última grande favela da Zona Sul que ainda não recebeu uma Unidade de Polícia Pacificidora e é chave no projeto do governo. Acredito que foi por isso que eles demoraram tanto para entrar na Rocinha.”

A estudiosa de favelas diz que nas 18 UPPs instaladas – a da Rocinha será a 19ª – a população passou a viver com mais segurança, sem estar submetida a frequentes tiroteios, mas ressalva que as comunidades continuam cheias de criminosos armados.

“Ainda não há uma retomada clara da autoridade do Estado nas comunidades pacifiadas”, observa.

Para a antropóloga, o ponto mais fraco do projeto das UPPs é o fato de elas terem chegado a menos de 20 das quase mil favelas do Rio de Janeiro. “As favelas que estão sendo pacificadas são as que ficam nas áreas onde vão acontecer a Copa do Mundo e as Olimpíadas, enquanto os problemas continuam nas periferias. É uma política de invisibilidade.”

'Lugar colorido'

Image caption Para Diana e Stefan, favela "pareceu lugar colorido e com muita gente boa"

O casal de holandeses Stefan Prins e Diana van Staalduijnen não puderam entrar nas vielas da Rocinha, mas gostaram do passeio por dentro da favela Vila Canoas.

“Foi um passeio ótimo. A favela pareceu um lugar colorido e com muita gente boa. Não me passou a impressão de crime, drogas e violência de que eu ouvia falar”, disse Prins.

Mas depois de serem apresentados ao lado romântico da favela, os sete turistas tiveram o choque de realidade com a decepção de não fazer o esperado passeio por dentro de uma das maiores favelas do mundo.

Chegaram aos pés da Rocinha, mas só puderam admirar de baixo, do asfalto, as dezenas de milhares casas e prédios emaranhados morro acima e para todos os lados.

“As entradas estão abertas, estamos vendo gente subindo e descendo, mas nosso guia disse que é melhor não entrarmos porque não dá pra saber como está a situação por lá. As pessoas podem estar muito tensas”, disse Prins.

Os moradores que entravam e saíam da favela confirmavam que o clima ali dentro era de tensão, tanto que apenas uns poucos paravam para conversar com a imprensa, e apenas sem nomes.

“Muita gente já saiu daqui. Eu vou ficar porque tenho medo que mexam na minha casa”, disse uma mulher.

Mas apesar do medo ela se dizia otimista. “Agora é torcer pra que isso funcione e a gente ganhe nossa segurança e nossa dignidade.”

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