Ação policial lança discussão sobre futuro de ‘indignados’ nos EUA

Atualizado em  15 de novembro, 2011 - 19:38 (Brasília) 21:38 GMT
Manifestantes em Nova York.

Expulsão de ativistas pode ter impedido que o movimento perdesse o fôlego

A ação policial para retirar manifestantes acampados há quase dois meses no Parque Zuccotti, em Manhattan, provocou um debate sobre o futuro do movimento "Ocupe Wall Street", que surgiu em Nova York e se espalhou por diversas cidades americanas.

Recebida com indignação pelos apoiadores e com alívio por alguns vizinhos e comerciantes da região, a intervenção da polícia teve como reação imediata a promessa da realização de novos protestos.

Pouco após a ação, os manifestantes expulsos do parque já haviam se reagrupado em áreas próximas, e os organizadores do movimento – que protesta contra a desigualdade na sociedade americana, as grandes corporações e a falta de emprego – já anunciaram uma grande mobilização para esta quinta-feira, quando o "Ocupe Wall Street" completa dois meses.

Em entrevistas à imprensa americana, ativistas disseram que a ação da polícia – que levou à prisão de cerca de 200 pessoas, antes de ser interrompida por uma ação judicial em favor do movimento – serviu apenas para fortalecer a mobilização.

'Favor'

Muitos analistas afirmam que o fato de o parque ter sido desocupado pela polícia – sob as ordens do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg – acabou sendo "um favor" aos manifestantes, em um momento em que as temperaturas começam a cair no hemisfério norte, com a proximidade do inverno.

A própria revista anticonsumista canadense Adbusters chegou a sugerir em sua última edição que os manifestantes declarassem vitória e levantassem acampamento, para evitar a perda de ânimo com a chegada do inverno.

A mesma publicação impulsionou o surgimento do movimento, em setembro, ao propor a ocupação pacífica de Wall Street, inspirada nos protestos realizados no início do ano na Praça Tahrir, no Egito, e em cidades espanholas.

A ocupação do Parque Zuccotti teria dificuldades em aguentar muito mais tempo”, escreveu no jornal Washington Post o analista Ezra Klein, que também é comentarista da Bloomberg News.

"Ao retirá-los agressivamente do parque, Bloomberg poupou (os manifestantes) desse destino. O Parque Zuccotti não foi esvaziado pelo mau tempo ou por falta de comprometimento dos manifestantes", disse.

"Ele foi esvaziado de uma maneira que irá revigorá-los temporariamente e dar ao Ocupe Wall Street a melhor chance possível de se transformar no que quer que venha a seguir", escreveu Klein.

Um artigo assinado pelo jornalista Derek Thompson na revista The Atlantic segue a mesma linha ao afirmar que, no momento em que o entusiasmo do público com os protestos começava a dar sinais de enfraquecimento, a ação policial lembra a nação sobre as origens do movimento.

Expulsões

Manifestantes e policiais em Nova York.

O fechamento dos acampamentos dos manifestantes está acontecendo em diversas cidades americanas

Bloomberg justificou a ação em Nova York citando riscos à saúde e à segurança dos manifestantes e da comunidade. Ele disse ainda que o acampamento viola a lei ao impedir a utilização do parque por outras pessoas.

A expulsão ocorreu depois de ações semelhantes em outra partes do país, onde movimentos inspirados no Ocupe Wall Street também sofreram intervenção policial.

Na última segunda-feira, mais de 30 pessoas foram presas em Oakland, na Califórnia, quando a polícia fechou um acampamento semelhante.

Alguns analistas afirmam que episódios de violência registrados em alguns dos acampamentos vinham prejudicando a imagem do movimento, afastando-o de sua mensagem inicial que conquistou a simpatia de muitos americanos frustrados com a situação econômica do país.

A expulsão do Parque Zuccotti seria a chance de se reorganizar e dar novo foco à mobilização.

"O movimento já teve muitos ganhos", disse Ezra Klein, no Washington Post. "A desigualdade de renda é hoje uma questão no topo das preocupações, antes do Ocupe Wall Street, não era."

Segundo analistas, caso decidam ir adiante, os manifestantes não precisarão de um parque ou local físico para acampar, e sim de propostas mais claras.

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