Direto da Rocinha: 'Relação com a polícia está muito diferente de antes'

Moradora caminha com criança na Rocinha (Foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption P.J.: 'Quero viver esse momento de paz e quero que meus filhos curtam'

Morador da Rocinha há mais de 30 anos, P.J. conversou com a BBC Brasil pelo telefone para falar sobre a ocupação da comunidade por forças policiais, que devem instalar no local uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

P.J, que pediu anonimato, concordou em fazer um diário para a BBC Brasil, contando o que se passa no local antes, durante e depois da ocupação. Leia abaixo seu depoimento:

15/11/2001 - Terça-feira

"A relação com a polícia está muito diferente de antes, porque agora eles sabem que aqui só tem morador. Uma parte dos traficantes já foi embora e os poucos que ficaram estão sendo denunciados. Vários já foram presos aqui – não traficantes de importância, mas fogueteiros, por exemplo.

Aos poucos todos eles vão ser presos, porque a população tem várias formas de denúncia: via e-mail, por telefone. Isso é uma coisa inédita. Em 30 anos de favela, eu nunca vi nada parecido.

A população está ajudando, de certa forma. Ontem foi descoberta uma refinaria (de cocaína) por causa de denúncias da população.

Com a chegada da polícia na Rocinha, vem também o poder público, vem a paz social. Já disseram que vão construir um plano inclinado para transportar os moradores e um reservatório de água para atender à população.

Vai melhorar também a distribuição do gás de cozinha, que era controlado pelo tráfico e você tinha de comprar das mãos deles. As pessoas às vezes tinham de comprar gás muito longe de casa, porque nenhum mercadinho vendia gás. Imagine, se falta gás às 10 horas da noite, ter de ir comprar o gás lá longe para poder fazer comida para os filhos.

Outra coisa que está mudando é a coleta de lixo, que agora está ocorrendo de madrugada. Antes, para não colocar em risco os seus funcionários, a empresa de coleta de lixo só entrava aqui de manhã e complicava todo o tráfego. Ontem, quando eu ouvi um caminhão de lixo às 2h da madrugada, pensei 'que legal, um caminhão de lixo de madrugada'.

Ser o centro das atenções da mídia nacional e internacional é uma coisa muito estranha. A gente sempre viu turista aqui – isso é normal. Mas vir jornalista do mundo inteiro para ver essa operação é uma coisa inédita.

Eles (os jornalistas) se referem à Rocinha como a maior favela da América Latina. A Rocinha não é uma favela, já virou um bairro há muito tempo, mas o rótulo de favela não vai sair nunca.

Eu espero que essa paz dure muito tempo e que a gente não volte para o domínio do tráfico. Quero viver esse momento de paz e que meus filhos curtam uma Rocinha de paz como eu estou curtindo."

14/11/2001 - Segunda-feira

"Depois da ocupação, as pessoas estão contentes, mas não podem comemorar muito. O pessoal está se contendo, não está na euforia total, porque a gente não sabe o dia de amanhã.

Mas as coisas estão voltando ao normal. As crianças estão nas ruas, tem barulho nas ruas, o mesmo barulho à noite, baile funk, está tudo voltando ao normal. Tem uma invasão de vendedor de antenas e TV a cabo. As pessoas querem saber das notícias.

Tem muita polícia, mas não teve nada de violência. A convivência com a polícia é tranquila.

Antigamente a polícia não era bem vinda, então hoje em dia o olhar fica meio esquisito. Fica aquele olhar meio estranho, de 'caça e caçador' antigamente. Aí rola um sorriso do morador, um sorriso da polícia, todo mundo ainda está começando a se entender. Sabe aqueles amigos que ficam de mal na infância e estão voltando às pazes agora? É mais ou menos isso.

É um sentimento de liberdade. Liberdade total. Você saber que vai sair de casa e voltar com tranquilidade. O tráfico era uma coisa que estava aqui e você não podia dizer nada, não podia ter opinião. Agora, eu acho que as pessoas vão denunciar quem for do tráfico."

13/11/2001 - Domingo

"A ocupação foi tranquila. Estávamos apreensivos, sem saber o que ia ocorrer. Ontem as pessoas estavam fazendo filas nos mercados, comprando mantimentos para ficar em casa hoje, num clima quase de guerra.

Mas foi tranquilo, não teve tiro, não teve barulho de tiro. Eles entraram na hora programada. Às 4h os blindados subiram.

Helicópteros sobrevoaram a comunidade jogando panfletos, pedindo para a população ajudar a polícia, para dizer onde tem deposito de armas, ajudar a polícia no que for preciso.

Não houve resistência, mas em alguns lugares da favela teve óleo derramado na pista por remanescentes do tráfico, algum fogueteiro, para tentar dificultar a subida dos blindados da polícia.

A TV clandestina acabou, ficou muita gente sem TV, então as pessoas estão se informando mesmo é pela internet, por e-mail, pelo Facebook. Eu vi várias fotos de ruas da Rocinha, postadas por amigos para mostrar como estava a situação, se o local está com luz ou não, se tem abuso da polícia ou não, ajudando a divulgar o telefone da corregedoria caso houvesse algum abuso. A comunidade está unida. Acho que a grande maioria está a favor (da ocupação).

Eu acredito que ainda exista gente do tráfico dentro na favela. Agora ou eles vão sair ou a polícia vai achar essas pessoas aos poucos.

É aquele lance que eu falo: só acredito na pacificação mesmo quando não tiver mais essa gente aqui dentro. Enquanto elas estiverem aqui dentro, vamos ficar ansiosos, porque ninguém sai do tráfico de uma hora para outra. Então a gente fica meio com receio.

Ainda tem algumas dessas pessoas que ainda continuam, mas a gente vai ver com o tempo se elas vão sair ou não. Por isso que a polícia está pedindo ajuda da população, para que essas pessoas sejam denunciadas e possam ser presas.

Vai ser uma pacificação entre aspas. Sabemos que o tráfico de drogas nunca vai acabar. Enquanto houver usuários, não vai acabar. Vamos esperar para ver. O que a gente não quer mais ver é bandido armado, impondo alguma coisa.

Mas com a polícia dentro da favela, o poder público vai poder ajudar, vai haver mais ajuda do governo, escolas, os professores vão querer dar aula lá, não vão mais ficar com medo do tráfico, de tiroteio.

Tomara que isso aconteça e que não seja jogada de político, porque no ano que vem tem eleição. A gente que não é bobo aqui dentro sabe o que está acontecendo."

12/11/2011 - Sábado

"O clima é de total apreensão, porque está chegando a hora. À noite, você não vê muita gente na rua e os bares estão fechando cedo.

A gente não sabe quando a polícia vai entrar e de que forma vai entrar: se vai ser com truculência ou se vai ser de forma pacífica.

Algumas pessoas que têm lugar para dormir fora da comunidade – em casa de parente, por exemplo –, estão saindo da favela e levando os filhos.

Se eu tivesse condição, também estaria fora. Mas a gente fica com medo de alguém entrar na nossa casa e quebrar tudo.

Tem gente que está deixando de trabalhar e ficando dentro de casa para evitar furtos de eletrodoméstico, como aconteceu no Morro do Alemão, e para receber a polícia quando eles baterem na porta e quiserem fazer revista.

Acho que 80% das pessoas na Rocinha concordam com a estratégia da polícia de avisar antes da invasão. Sem aviso, o banho de sangue seria muito maior.

Só a possibilidade de uma UPP na Rocinha já está fazendo as coisas se valorizarem. Tem casa que custa R$ 60 mil, R$ 70 mil na favela.

Se a UPP entrar aqui, como estão dizendo, as coisas vão se valorizar ainda mais. Vai ter um boom imobiliário aqui. Quem tem sua casa está bem; quem não tem, vai ser difícil comprar.

Eu tenho muito tempo de favela, eu quero ver mudança. Vi meu primeiro cadáver aos oito anos de idade. Quem nunca viu, não viveu a realidade da favela."

11/11/2011 - Sexta-feira

"O clima na Rocinha está tenso e confuso porque os moradores não sabem o que está realmente por vir.

Alguns estão com medo de deixar suas casas e terem objetos como televisõe e eletrodomésticos furtados, como aconteceu na tomada do Complexo do Alemão.

Temem também abusos de autoridade por policiais. Não estou com medo, mas estou apreensivo. Minha família toda vai ficar em casa. Não tenho saída. Tenho de trabalhar no domingo.

Quero dar uma vida digna aos meus pequenos, com a certeza de uma Rocinha melhor. Mas só vou mesmo acreditar na vida sem a influência do tráfico quando puder andar com meus filhos tranquilamente.

Nunca vivi algo parecido, uma sensação de liberdade, de poder ir e vir, de falar para o taxista que moro na Rocinha e não mais dizer que moro em São Conrado só para ser levado. Estou muito otimista, muito mesmo.

Sabemos que o tráfico continua em favelas da UPP, só que não armados nem impondo nada a ninguém. Da polícia, eu espero uma ação tranquila, que eles façam o trabalho deles.

Acho que uns 90% dos moradores apoiam a instalação da UPP. Tenho mais de 30 anos de Rocinha.

Já faz uns cinco anos que não se vê polícia subindo o morro. Não sabemos dos possíveis problemas da pacificação.

Nunca vivemos isso, e só sabemos pela imprensa o que aconteceu em outros morros. Vamos ver no domingo o que vai acontecer.

O morro hoje está numa aparente tranquilidade."

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