Lucas Mendes: Dignos e desocupados

Hoje é o aniversário de 2 meses da ocupação de Wall Street - OWS - e de 2 dias da desocupação DWS.

Parabéns pela ocupação e pela desocupação.

A praça Zuccotti , que antes se chamava Praça da Liberdade, está um encanto, limpa, com suas delicadas árvores amarelas em fulgor outonal. Virou atração turística e entrou para a história.

O prefeito Bloomberg acertou quando mandou a tropa de choque acordar os ocupantes e desocupar a praça.

Final dramático, sem violência.

Até os que apoiavam o movimento estavam aflitos com as possibilidades de desgaste e quebra-quebra. As divisões entre as facções do parque eram crescentes.

Com a expulsão pela força, o prefeito, com ou sem intenção, desfez a ocupação que no inverno correria o risco de ser politicamente esvaziada ou congelada.

A revista canadense Adbuster, mãe da ideia da ocupação, nesta segunda sugeriu que os ocupantes desocupassem e declarassem vitória.

Pela reação da imprensa radical conservadora, o OWS foi apenas sexo, fezes, drogas, violência, decibéis e decadência.

Os ocupantes venceram.

Ontem à noite, um programa em horário nobre, no canal de TV mais influente, colocou a imagem de um maluco que prometia incendiar Nova York, hoje, quinta, com coquetéis molotovs, e os participantes dabateram a ameaça durante três minutos. Quem é mais maluco?

Fui um mini ocupante. Duas tardes jornalísticas. Não vi imundíce, não ouvi ameaças de ataques, nem senti aquele cheiro agradável de ervas comuns neste tipo de evento.

A única música vinha de tambores que, a pedido da vizinhança, foi reduzido em volume, número de participantes e horas de batuque.

Havia comida de graça decente que atraía sem tetos, famintos e desocupados, seis barracas de sanduíches em volta, vendedores ambulantes e turistas. No fim das tardes havia uma brisa de tédio e de não sei o que....

Quantos ocupantes estavam lá para comer de graça, quantos queriam quebrar o pau, quantos queriam corrigir o país? Não temos estes números. Havia alienados e analfabetos políticos.

Um repórter da rádio WOR perguntou a cinco ocupantes quem era Khadafi. Só um sabia.

Daniel Levine, um comediante profissional, era responsável pelo Centro de Informações e recebia dezenas de ocupantes que queriam participar das comissões mas não tinham nenhum tipo de talento.

Daniel os encaminhava para a Comisssão de Artes e Cultura. Passou dos oitenta membros. Havia também uma comissão de Esperanças e Sonhos. Não chegou a organizar nenhuma reunião mas não perdeu a esperança.

Nestes dois meses Ocupe Wall Street não produziu uma agenda, uma plataforma, nem mesmo um plano de ação com meia dúzia de objetivos capazes de uma mobilização em torno de causas políticas práticas. Fracassou?

Negativo. O movimento conseguiu se espalhar por várias cidades americanas e algumas fora dos Estados Unidos. Esta fluidez e a falta de uma causa central são atrações do Ocupe Wall Street, OWS, a OUDABLIUESSE .

O pânico da imprensa ultra conservadora é apenas uma das provas do sucesso dos OWS.

Hoje a maioria dos americanos sabe o que é "99% contra 1%". Mais do que um jargão, revela o desproporcional enriquecimento da minoria do país nos últimos 30 anos graças aos empobrecimento da grande maioria. O sistema de impostos é apenas uma das causas.

Um movimento espontâneo, sem plataforma nem agenda poíitica, sem líderes, despertou a indignação de milhões contra a desigualdade social e economica do país, a ganância dos bancos e dos investidores na cama com os políticos em Washington, contra a disposição da ala radical republicana de destruir Obama a qualquer preço.

O futuro do OWS é SDS - Só Deus Sabe - mas nos últimos dois meses os americanos levaram um choque e pode ser mais do que um raio.