Ivan Lessa: Comichão da verdade

Finalmente. Demorou um pouquinho mas vai sair. A promoção da reconciliação nacional. Estávamos de mal, ficaremos de bem. Quando? Bem, como dizem os garçons, "Está caprichando, freguês".

Li nas folhas. Poucas, é verdade, mas lá estava com todas as letras: a presidenta Dilma Rousseff sancionou na quarta-feira, dia 17, a lei que cria a Comissão da Verdade, que entrou em vigor no sábado, 19.

O texto, já aprovado no Senado após consenso entre representantes de civis e militares (taí um consenso raro), prevê a criação de um grupo que vai apurar as violações dos direitos humanos ocorridas de 1948 a 1988, período que, como alguns esqueceram, inclui a ditadura militar.

Ao contrário de outros países, a comissão de sete membros, que ainda não tiveram seus nomes divulgados, ou contemplados, não terá poderes punitivos.

Conforme disse a presidenta Rousseff por ocasião de seu anúncio, em eloquente discurso, e para ele abro aspas me curvando como leal súdito, "o Brasil inteiro se encontra consigo mesmo, sem revanchismo mas sem a cumplicidade do silêncio". E ainda, "somos um país que precisa conhecer a sua história"”

Agora sim a verdade flutuará orgulhosa sobre o óleo da mendacidade. Conheceremos enfim nossa história sem misticismos, sambas-enredos ou livros escolares distribuidos pelo Ministério da Educação seguindo as regras da "reforma ortográfica".

Tomem isso e mais isso, argentinos e chilenos, com seus revanchismos infantis.

Nesta copa não temos Astiz, "anjo louro da morte", condenado à prisão ontem mesmo por eventos ocorridos há mais de 25 anos, ou general Augusto Pinochet, flagrado em impedimento na Espanha e processado, só escapando de uma cela e do "revanchismo" esgoelado da História graças à sua idade avançada.

Vamos conhecer nossa história desde 1948 e o governo do Marechal Dutra, logo após a Segunda Guerra Mundial e os 15 anos da primeira ditadura Vargas, o Mau.

Saberemos o que se passou nos porões do marido de Dona Santinha até a eleição de Vargas, o bom, que foi de 1951 a 1954.

À tona virão os podres do governo de Café Filho (1954-1955) e das masmorras silentes e distantes de todos os interinos do período (quase que tivemos mais interinos que titulares; chateavam e torturavam menos) incluindo Carlos Luz (1955) e Nereu Ramos (1955-1956).

Depois os titulares, hoje raros na memória popular feito as figurinhas difíceis das balas Futebol: Juscelino (1956-1961), Jânio Quadros (oito agitados meses em 1961), João Goulart (1961-1964) e os seguintes de que todos nós não falamos, não lembramos e deles não queremos ser lembrados.

Da mudez submarina de todos desde Tancredo "O Brevíssimo" Neves (1985), José Sarney (1985-1990), Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e Collor de Mello (1990-1992).

Deles sobrou, está subentendido na fala presidencial atual, apenas uma vaga lembrança não-revanchista destituída desses modismos de julgar. Seriam apenas, sempre implicitamente, responsáveis por violações dos direitos humanos. Indenizações, sim; forras, não. Reconciliemo-nos sim, deles nos lembrando como eles e as cartilhas querem ser lembrados.

Para mim, surpreende-me o fato de que o mais importante, o mais confiável de todos os presidentes inclusos na época da Comissão não seja mais conhecido, exaltado e justiçado: Ranieri Mazzilli.

Espero que afinal lhe façam justiça. Um interino nato. De um homem não se pode esperar ou exigir mais que a interinidade nesta Terra de Deus.

Mazzilli fez de sua interinidade bandeira e razão de viver. Foi presidente interino por duas vezes, ambas marcantes: em 1961, quando da renúncia de Jânio, de 25 de agosto a 7 de setembro, e, 3 aninhos mais tarde, de 12 a 15 de abril de 1964. Nunca se falou mal dele.

A Comissão irá investigar o que se passou nos seus "porões" como na certa fará com o policial e mais tarde senador Filinto Muller? Não creio.

Mazzilli, que eu saiba, em seus porões nem garrafa de Beaujolais vagabundo tinha e, por isso e tudo mais que deixou de fazer, a não ser posar de fraque para as objetivas, merece estátua, placa, nome de praça, tudo.

Anti-revanchismo é com ele e para ele. Mazzilli deve ser estudado a fundo, sua história conhecida e divulgada. Por civis graduados, militares e gente normal, como eu e você.

Sim, reconciliemo-nos todos, mas em torno de Ranieri Mazzilli, herói esquecido e injustiçado. A interinidade é a única condição que nos foi legada. Dela é precisa aprender a fazer bom uso.