Sob tensão, Egito se prepara para primeiras eleições pós-Mubarak

Manifestante na praça Tahrir. AFP Direito de imagem AFP
Image caption Primeiras eleições democráticas desde o levante de janeiro ocorre em meio a nova onda de violência

Em clima de tensão, com milhares de manifestantes concentrados no centro do Cairo pedindo a renúncia da Junta Militar que comanda o país, os egípcios se preparam para ir às urnas nesta segunda-feira, nas primeiras eleições desde a queda do regime do ex-presidente Hosni Mubarak.

Cerca de dez mil candidatos de mais de 40 partidos disputam 498 cadeiras para a Assembleia do Povo (Câmara dos Deputados). As eleições parlamentares se encerram na terça-feira, dia 29.

A votação também vai determinar qual bloco político controlará o Parlamento, que elegerá um comitê de cem membros com a função de elaborar uma nova Constituição.

O Conselho Supremo das Forças Armadas, a Junta Militar que governa o país desde a saída de Mubarak, apontará o novo governo com base no resultado das urnas.

Dois terços dos parlamentares serão decididas por um sistema proporcional com base de uma lista partidária.

O terço restante será composto pelos candidatos mais votados, em um sistema de maioria absoluta.

As eleições para as 180 cadeiras do Conselho da Shura (Senado) estão marcadas para 29 de janeiro do ano que vem e a eleição presidencial para julho de 2012.

No pleito desta segunda-feira, pela primeira vez os egípcios que moram no exterior poderão votar.

Críticas

O primeiro teste para a democracia no Egito acontece em meio a tensão e a protestos na praça Tahrir, no centro do Cairo, e em outras cidades do país.

Manifestantes, formados por ativistas islâmicos, grupos de juventude e alguns movimentos políticos exigem a renúncia da Junta Militar e o cancelamento das eleições.

Os protestos provocaram uma onda de violência que teve inicio no dia 19 de novembro e já deixou 36 mortos e centenas de feridos.

Os militares são acusados pela oposição de fazer manobras políticas e manipular o gabinete interino a aprovar leis que dariam maior autonomia para as Forças Armadas, como um orçamento próprio e mais independência em relação ao governo civil.

Os militares negam as acusações e seu líder, o marechal Mohamed Hussein Tantawi, alertou que não toleraria tentativas de minar a imagem das Forças Armadas.

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Image caption Protestos pedem renúncia do governo de Ganzouri (esq.), indicado pelo marechal Tantawi (dir.)

Tantawi também garantiu que os militares vão entregar o poder a um governo civil após a eleição presidencial do ano que vem e determinou que as eleições fossem realizadas dentro do prazo programado.

Expectativa

Nas ruas do Cairo, há uma grande expectativa em relação ao desempenho de partidos islâmicos no pleito. Agremiações religiosas eram proibidas de concorrer nos tempos de Mubarak.

A Irmandade Muçulmana, com seu partido Justiça e Liberdade, e o partido Nour, ligados aos salafistas (conservadores islâmicos), são vistos como favoritos para ganhar a maioria no Parlamento do país.

Egípcios liberais e cristãos coptas temem que uma maioria islamista possa ameaçar o caráter secular do Estado egípcio. Eles acusam os grupos religiosos de planejar o estabelecimento de um Estado islâmico no país.

A Irmandade Muçulmana, considerada mais moderada, e os salafistas negam essa possibilidade. Eles argumentam que, caso obtenham maioria para formar o governo, respeitarão todos os grupos sociais e religiosos.

Os dois movimentos islâmicos também vêm se confrontando com acusações mútuas. Membros da Irmandade acusam os salafistas de receberem dinheiro da Arábia Saudita e de atender os interesses do governo saudita.

Por sua vez, líderes salafistas acusaram a Irmandade Muçulmana de receber dinheiro do Irã, o que é negado pelo grupo.

Em meio às tensões, a polícia egípcia montou um grande esquema de segurança para garantir que as eleições ocorram tranquilamente.