Lucas Mendes: Os caídos e os vazios da Espanha

Quando saí ontem de Madri o debate era sobre o corpo do Generalíssimo.

36 anos depois da morte do ditador, com a Espanha a beira do próprio funeral, os espanhóis não sabem se tiram ou deixam os ossos de Franco debaixo de uma tonelada e meia de concrento no monumental cemitério Vale dos Caídos, onde estão 34 mil mortos na guerra civil.

Franco morreu na cama, 36 anos depois do fim da guerra. A comissão que examinou a questão tirou o corpo fora e sugeriu que a decisão cabe à Igreja Católica.

País fantástico, tão parecido e tão diferente do Brasil. Os espanhóis tiveram quase 40 anos de ditadura, nós tivemos 20.

Depois dos ditadores, vieram regimes conservadores de direita seguidos por regimes de esquerda. Na Espanha os socialistas, no Brasil os petistas.

Estatizações, privatizações, corrupção extravagante, drogas, paixão por esportes, loteria, novelas. Eles tiveram crescimento explosivo nos anos sessenta e nos setenta.

Depois, décadas perdidas seguidas de décadas prósperas.

As filas nos pontos lotéricos chamam atenção. Elas revelam que os espanhóis apostam o dobro do que os americanos e ingleses.

Um povo de extremos: já foram campeões mundias de consumo de cocaína, ficavam em segundo lugar em ecstasy, terceiro em maconha, e em consumo de álcool so perdem para irlandeses e alemães.

Na década de oitenta eram líderes em consumo de heroína na Europa e líderes em Aids. Só na década de 90 o governo decidiu proibir o consumo de drogas em público.

Os socialistas caíram do poder depois de 12 anos por corrupção e empreguismo de partidários mas é pouco provável que isto aconteça no Brasil onde os beneficiados e afilhados do PT acham que corrupção é parte do jogo e que Lula e Dilma são isentos.

Passei quatro dias em Logrones, uma cidade de 150 mil habitantes na região de Rioja. A cidade milenar, na trilha do Caminho de Santiago de Compostela, combina o antigo e o modernoso.

Nos quatro dias e não sei quantas horas de caminhadas soó vi um sem teto. Estava debaixo de uma ponte com seu cachorro perto da praça pública de esportes onde há quase uma dúzia de prédios novos completamente vazios. São vítimas da bolha imobiliária.

A praça de esportes, com várias piscinas, quadras e restaurantes é melhor do que muitos clubes granfinos no Brasil. A manutenção não só da praça com da cidade é impecável. Depois de meia noite deparamos vimos ruas sendo lavadas por equipes com possantes mangueiras.

Uma das manchetes na primeira página dos jornais de quarta-feira era sobre a Catalunia, a região autônoma famosa pelas artes, pelo Barça, pela disposição de trabalho e empreendedorismo acima da média espanhola. O ministro da Saúde quer substituir o sistema de assistência médica pública, já quase falido, por um sistema no qual a população acima de certa renda, pague por planos de seguro privados. O modelo é copiado dos holandeses e deve provocar protestos.

O novo governo vai tomar posse dia 22 com um plano de arrocho feroz. Quantos estarão sem teto daqui a um ano?

John Hooper, um correspondente que escreveu sobre a Espanha e publicou dois livros sobre os espanhóis - The Spaniards, em 86 e The New Spaniards, revisado em 2006, acha que o país tem uma distante porém possível vocação para desintegrar embora tenha sido bem sucedido e se unificado no combate ao terrorismo interno basco e aos muçulmanos.

No momento, passa pela sua crise mais profunda desde a guerra civil, com socialistas e conservadores mais distantes do que nunca.

O escritor americano Ernest Hemingway, na década de 20 se apaixonou pela Espanha e dizia que os espanhóis eram o povo mais puro da Europa porque não haviam sido tocados pelas guerras do fim do século 19 nem pela 1ª Grande Guerra de 1914.

Isto foi antes da brutal guerra civil de 36 a 39.

Hemingway foi tão inspirado por Pamplona que passou a levar amigos para o festival de San Fermin. Foi lá, no dia do aniversário, em 1925, que se sentiu mais escritor do que jornalista e em apenas 8 semanas terminou The Sun Also Rises, seu primeiro romance levado para as telas com um time de estrelas que incluía Tyrone Power, Ava Gardner, Errol Flynn, Mel Ferrer e Juliette Greco.

Hemingway vivia em Paris e acreditava na frase de Gertrude Stein sobre a geração americana perdida. No livro ele descreve relações românticas frustradas, a decadência moral dos americanos e ingleses ricos em Paris que não eram decentes nem na hora de pagar as contas. Se queixava que muitas vezes, ele, o jornalista pobre, era quem pagava.

Em Logrones há um estaurante antigo, El Cachetero, famoso entre outras coisas, porque Hemingway e o rei da Espanha teriam comido lá. Sólido, bonito, está na mesma família há quatro gerações.

A garçonete nunca tinha ouvido falar em Hemingway. Trouxe o historiador da casa. Ele contou que vários membros da família real de fato frequentaram o restaurante, mas o rei nunca comeu lá. Hemingway sim. "Veio aqui com um grupo, comeram e beberam com fartura e saíram sem pagar. O garcon correu atrás do grupo e pegou Hemingway lá na praça da catedral. Ele, que tinha sido o anfitrião, disse que voltaria à noite para jantar e pagaria a conta do almoço", disse o historiador.

Neste conto do escritor o garçon não caiu. A história é boa mas o importante é saber quem vai pagar a conta da Espanha e ocupar os milhares de prédios vazios.