Ivan Lessa: Morte por cremação é joia

Minha limitada informatização limita-se ao norte por procurar CDs novos de cantores mortos na Amazon, ao sul pelos primeiros sinais de minha falência bancária, ao leste por um joguinho mixuruca de pôquer com dinheiro de mentirinha e ao oeste, que é o lado onde nasce o Sol, os noticiários. Correio eletrônico não vale: é como tanta coisa em minha vida, tudo junk, junk, junk e não quero viagra nem alterar qualquer de minhas pobres dimensões.

Uma coisa faço todos os dias. Dou um pulo cibernético e caio em pé nos diversos portais de meu torrador natal só para saber dos mais recentes ufanismos, crimes hediondos, compras de Eike Batista e, principalmente – abro o jogo – saber quem morreu. Sou de um tempo em que as pessoas, amigas ou conhecidas de noticiário, tombam como os pacificados iraquianos do bom sacana do Barack Obama.

A morte não só faz a minha praia como, num arrastão macabro, traz à beirinha, para domésticas e donas de casa se divertirem e levarem para casa, mortos que não acabam mais. Há mortos de várias idades e tamanhos, mas, como uma tainha, tenho minhas predileções. Busco nas redes que os portais noticiosos jogam sérios em minha direção aqueles que considero como de minha geração. Estão botando o boné e batendo com as dez, para deixar a praia e passar para um carteado legal mais tarde, à noitinha.

Por que tanto interesse de minha parte? No problemo, como diz o Bart Simpson. Preparação física, treino, como se me preparando para os Jogos Olímpicos do ano novo que nos ronda malévolo e que, desconfio confiando, não irei participar como telespectador ou coisa alguma.

Volto à morte como ela, delicada, se volta para mim. Todo dia, disse e repito, tem alguém conhecido que nos (dou uma chegada ao Brasil pelas asas da Panair) deixou. Leio o pouco que entendemos da difícil arte do obituário, na qual os britânicos ainda detém medalha de ouro, e, na companhia fiel de meu enfisema, constatamos. Só isso. Constatamos. Não há mais motivo para verter lágrimas. Isso ficou rondando o cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio.

Só que tem acontecido uma coisa engraçada, se graça há nessa história. Em determinado portal, junto com a notícia dada em tom sóbrio e factual, salta sempre uma janela anunciando em inglês (isso não é raro entre nós) algo chamado Ashes into Glass (Cinzas em Vidro). Esta semana cliquei em cima para aumentar meus conhecimentos, uma vez que a net também tem mania de, além de vender, ensinar.

O resumo da história, que qualquer um aí pode conferir, é o seguinte: uma firma situada na cidade de Billericay, condado de Essex, aqui do meu lado, oferece-se, em língua inglesa polida, para transformar as cinzas de entes queridos em jóias ou artefatos artísticos decorativos, seguindo o trabalho dos mestres artesãos Bill Rhodes e James Watts. Dois magos capazes de transformar sua mãe, tia, avó ou papai em joia fina e artística ou, para os menos exigentes, pesa-papéis do melhor bom gosto. A mágica é obtida mediante a combinação das cinzas dos falecidos com cristais multicores de vidro derretido numa temperatura de cerca de 1.100 graus centígrados. Depois, deixar secar por 18 horas. Curioso eles entregarem o mapa da mina com essa facilidade.

A artística companhia crematória conta com 60 oficinas e até mesmo playground para a petizada. Para não falar de um restaurante. Sábado é dia em que os visitantes podem acompanhar de perto todo o processo criativo, ou transformatório. No site, ou sítio, há um filmezinho de 8 minutos que é para a gente ter uma ideia do cinzeiro, vaso, anel ou colar que irão fazer de nós ou dos nossos.

Logo após o título da peça de promoção informática, um depoimento destinado a vender melhor a indústria. Nele, Teresa Evans Mortimer, que fez da mamã anel, declara: "Tem me ajudado a suportar a perda de minha mãe saber que ela está sempre comigo."

A possibilidade de fazer de parente, ser amado ou amigo piercing não foi levantada. Há um mundo de possibilidades à sua frente, progressistas e industriosos brasileiros. Mandem, ou façam, brasa.