Ivan Lessa: O Dia das Caixas

Segunda-feira, dia 26 de dezembro. A humanidade emerge com um travo ruim na boca e uma dorzinha de cabeça. Aquela parte que cuidou-se, ou não participou do orgiástico bimbalhar natalino, dá conselhos. Alcacelça aqui não está com nada.

De resto, é o mesmo resto de todos nós, nem xiitas ou sunitas: beba muita água, suco de tomate bem condimentado e, novidade para mim, evite o café.

Como deixei de fumar e de provar álcool (nem cerveja) observo a ressaca geral com um pequeno porém sórdido prazer sádico.

Foi mais um ou dois frascos de sadismo o que me deixaram, como se eu já não tivesse o suficiente, em torno da árvore, no pires deixado do lado de fora da janela ou próximo ao pinheirinho fajuto de Natal.

A vida volta a seu normal canalha e se prepara para a ceia de fim de ano e mais estrepolias comíveis e bebíveis. "Ô feriadão bão, sô!", exclama a família cristã cumpridora de seus rituais à exceção da missa de sétimo dia. Nunca que ninguém foi a alguma missa de sétimo dia a não ser a viúva ou viúvo ou algum passante crente que ia pegar uma broinha com café com leite.

Estabelecido ficou, creio eu, que o Natal, com todas suas desventuras, passou e, agora, em matéria de hecatombes, só resta esperar pelos Jogos Olímpicos de 2012 a ter lugar aqui em Londres, que é exatamente onde eu queria chegar.

Para ser franco, depois de umas boas (boas! Rá!) três décadas de residência nesta terra, eu às vezes me pergunto se melhor não teria sido aceitar aquele pistolão oferecido em forma de posto de funcionário público em Brasília; hoje eu já poderia estar rico só com a aposentadoria tirada há quinze anos, ou então ter sido o primeiro brasileiro da diáspora a fixar residência nos Estados Unidos, de preferência em Boca Ratón, onde exerceria o direito do voto, ser jurado e me amasiar com um transexual judeu aposentado além de poder cumprir a sagrada função de jurado em caso de hispânico estrangular mulher em meio a disputa doméstica natalina.

Tudo menos enfrentar este rabito de Natal que, no Reino Unido, leva o nome de Boxing Day, ou Dia das Caixas. Que era onde eu queria, ou sou obrigado pelas circunstâncias, a chegar.

Segunda, 26 de dezembro, dizia eu, e me repito, 26 de dezembro, feriado completo e débeis mentais enfrentado no frio as filas diante das lojas de departamentos para comprar sofás.

Os britânicos não podem ver um sofá que eles vão e compram. De seis em seis meses, uma lei não escrita, talvez uma forma de atavismo ou efeito monolítico de Stanley Kubrik, obriga-os todos a comprar um sofá novo. De qualquer cor.

Estamos em pleno Dia das Caixas, o Boxing Day a que já me referi, e volto a ele como se para me certificar de que estou ainda em estado natalino: semicongelado, tossindo, curtindo as hemorroidas que custaram mas chegaram (obrigado, Papai Noel, Ho! Ho! Ho!) e, em voz alta, quando ninguém me vê (e alguém lá quer me ver?), exclamando em meio a uma baba de consistência sobre a gasosa, "Bah! Humbug!" como o simpático Scrooge de Charles Dickens.

A origem do Boxing Day está envolta em mistério. Muitos juram que data do reinado de Agenor Segundo. Outros são da escola que prefere explicar como influência das manchas solares ou do aquecimento global e uns terceiros sugerem que não passa de legado da rainha Vitória, no auge do Império, quando os ricos, que eram uma espantosa maioria, reuniam todos os presentes recebidos e odiados, muitos sofás, de qualquer cor ou formato, e, em vastas caixas, onde caberiam uns dez colonos de bom tamanho, saíam distribuindo para os pobres as dádivas recusadas.

Se houvesse um colono ou outro, de preferência da cor do ébano, dentro de um dos recipientes em questão – vastas caixas – ia também para os menos afortunados, que, assim, sacaneavam seus vizinhos fazendo-lhes inveja.

Depois, os abastados vitorianos voltavam a se abastar com seus eggnogs (uma espécie de gemada forte) e a trocar impressões fúteis sobre o Natal que já se mandava montado em sua vassoura.

O Dia das Caixas é uma liquidação como todas as outras. Só que serve em duas frentes: a cristã adquirente e a pagã sob a ética de trabalhar o menos possível.