Haitianos em SP pensam em voltar a seu país só ‘de visita’

Atualizado em  12 de janeiro, 2012 - 06:37 (Brasília) 08:37 GMT

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Dois anos após terremoto no Haiti, jovens abrigados na Casa do Migrante sonham com trazer familiares de sua terra natal e construir vida aqui.

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Robens Valère e Margareth Pierre ainda falam um português hesitante. Hospedados na Casa do Migrante, abrigo feito por missionários Scalabrinianos em São Paulo, eles estão entre os haitianos que vêm ao Brasil em busca de oportunidades de emprego.

E vêm com a intenção de ficar. "Quero ficar aqui, onde a vida é melhor. Lá (em Porto Príncipe, capital do Haiti) não tem nada. Tudo desmoronou. Quero ir visitar minha família, sim, mas voltar, e (trazê-los) quando tiverem visto", disse Maragareth à BBC Brasil.

Dois anos depois do terremoto de 12 de janeiro de 2010, que matou 220 mil pessoas no Haiti, feriu mais de 300 mil e deslocou 2,3 milhões, o país ainda luta para se reconstruir. Na ausência de oportunidades, muitos emigraram, e o Brasil foi o destino de cerca de 4 mil deles no último biênio, segundo o Ministério da Justiça. Cerca de 1.600 deles receberam visto humanitário.

Para Rosita Milesi, do Instituto Migração e Direitos Humanos, esse número pode ser ainda maior, de até 6 mil pessoas.

Margareth, de 26 anos e mãe de um filho de quatro anos, chegou ao Brasil por uma rota comum entre os haitianos: entre trajetos de ônibus e de avião, passou pela República Dominicana, pelo Panamá e pelo Equador, até chegar a Tabatinga (AM), na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Margareth Pierre, haitiana que vive em São Paulo (Foto: BBC Brasil)

Margareth vive no Brasil há sete meses e sonha em trazer seu filho, de quatro anos

Em situação irregular, ela aguarda um visto para poder trabalhar no país. Sua vontade, diz, é arrumar emprego em algum restaurante e juntar dinheiro "para comprar uma casa".

Guardar dinheiro para trazer a esposa

Muitos imigrantes acabam ficando no Norte do Brasil, em cidades fronteiriças como Tabatinga e Brasileia, no Acre, que abrigam cerca de mil haitianos cada.

São Paulo é o destino de cerca de 700 deles, segundo o cônsul-geral do Haiti, George Antoine. A Casa do Migrante abriga 26 e espera mais dez pessoas, que devem chegar de Manaus na semana que vem.

Segundo agentes humanitários, em geral os haitianos tentam trabalhos temporários e bicos na construção civil, à espera de um visto que lhes permita trabalhar formalmente.

É o caso de Robens Valère, de 32 anos, no Brasil desde abril passado.

Depois de perder uma prima no terremoto e de morar na República Dominicana, resolveu tentar a vida em São Paulo, para onde veio de avião. Hoje trabalha como pintor, e tampouco sonha em viver novamente em sua terra natal.

"Meu sonho é guardar dinheiro para trazer minha esposa. Meu coração dói pela (distância do) meu país, mas quero uma vida melhor", disse.

Regularização e vistos

Casa do Migrante, em SP

A Casa do Migrante abriga atualmente 26 haitianos

A imigração haitiana entrou em pauta com o anúncio, do Ministério da Justiça, na última terça-feira, de que o Brasil pretende legalizar todos os haitianos que já estão aqui, além de regularizar a situação dos que queiram vir no futuro antes que saiam do Haiti.

A proposta do MJ, que será analisada nesta quinta pelo Conselho Nacional de Imigração (ligado ao Ministério do Trabalho), é de limitar a cem o número de vistos mensais a serem emitidos pela Embaixada do Brasil em Porto Príncipe, para pessoas que queiram vir ao Brasil em busca de trabalho.

No caso de a proposta ser aprovada, quem for pego sem o visto corre o risco de ser deportado.

Segundo Suzanne Legrady, do grupo católico Missão Paz, mantenedor da Casa do Migrante, a discussão em torno do assunto têm deixado os haitianos mais inseguros quanto a seu futuro no país e, em consequência, reticentes ao contato com a imprensa.

Dos 26 abrigados na Casa do Migrante, apenas Margareth e Robens aceitaram falar com a reportagem da BBC Brasil – e ele se recusou a ser filmado ou fotografado, justificando que "não queria aparecer para o mundo".

Para Helion Póvoa Neto, professor da UFRJ e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM), criou-se uma exagerada sensação de "invasão" haitiana, levando-se em conta que o número estimado pelo MJ, de 4 mil haitianos no Brasil ao longo de dois anos, é muito menor do que o de grupos migratórios vindos para cá do restante do continente, por exemplo.

Para efeitos comparativos, em 2010, o Brasil emitiu 7.550 vistos de trabalho para norte-americanos.

"Não faz sentido usar a expressão ‘invasão’ para pessoas que querem vir trabalhar aqui", diz. "São imigrantes irregulares, e não um exército."

O Ministério da Justiça afirma que a preocupação não é com a quantidade de haitianos, mas sim com o meio como têm vindo – por meio de atravessadores ilegais, pela floresta, e sob risco de violência.

Entrevistado antes do anúncio da proposta do MJ, Robens disse que até agora tem se sentido acolhido no Brasil. Questionado sobre o que mais gosta aqui, disse que são "os brasileiros, que me dão a mão".

"Tenho felicidade (de estar aqui). Peço a Deus que ajude o seu país. Nós (haitianos) não temos nada para dar em troca, mas agradecemos."

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