Ivan Lessa: Ainda os gatos chineses

Atualizado em  11 de janeiro, 2012 - 10:57 (Brasília) 12:57 GMT

Dois de meus três leitores reclamaram de minha passividade diante do caso dos chineses que comem gato assim como nós, ocidentais com muita honra, vamos de frango ou, exagerando, para beirar o politicamente incorreto, o foie gras, aquele do pato engordado na marra.

Perguntaram-me: "Mas logo você que tem uma gata de meia-idade em casa conta o caso com a maior calma deste mundo? Essa eu não entendi".

Simples. Mantive um distanciamento brechtiano da história de felinofagia sinófila para me irritar menos com a humanidade e aguentar o mais sereno possível os dias que me restam nesta terra sem desejar o mal para o bilhão de pessoas que, do outro lado do mundo, fazem besteira.

Não me utilizei da surrada desculpa de "cada um sabe de si" ou da velhacaria do "há gosto para tudo neste mundo de Deus ou, no caso, de Buda".

Não, não. Me indignei como qualquer pessoa de bem senso. Por falar nisso, meu terceiro leitor limitou-se a dar de ombros (há gente que ainda adota o folclórico gesto) e puxou o papo para os Jogos Olímpicos que vem aí. Covardão.

Fato é que, no box set aqui de casa, graças à sua privacidade, parti para umas pesquisas, desta vez nada tendo a ver com mulheres peladas, mas com gatos chineses assados ou guisados.

Pelas barbas de Confúcio, se é que ele as tinha! Como há gato sendo comido diária e paulatinamente na China. É mais que um pastel de queijo e menos que um croquete.

Aqui e ali, como um gatocida alucinado, pus-me a folhear e recolher dados, todos de procedência impecável.

Para os que confundiram minha atitude com indiferença, esbravejo alguns dos fatos que mais me afastaram do que, agora assim, chamo com todas as letras "o perigo amarelo". E pensar que os restaurantes chineses proliferam como sei-lá-o-quê no Rio e em São Paulo.

Vejam só:

No sul da China, gato é mais popular que pato ao tucupi em nosso simpático Pará. Há mercados literalmente recheados de gatos esperando sua vez de pegar uma panela ou frigideira. Mais espremidos e sofridos que pato em bûcherie francesa, sem as gentilezas, ou hipocrisias, gálicas.

Gostar de gato assim ou assado na China é sinal de bom gosto e exótico requinte.

Para o fim de satisfazer essa gente, há casos em que os gatos passam meses apertados em levas de 20 ou mais em jaulas mínimas de uns 50 por 60cm. Muitos morrem antes de seu destino final, aquele pauzinho oriental.

O fenômeno do gato chinês como "prato principal" se populariza cada vez mais. Até agora ninguém no Brics reclamou. Fazem vista grossa para os companheiros de olhinhos oblíquos. Tudo porque tem dinheiro, e muito, no meio.

Um jornal britânico classe média, de centro-direita, o The Mail on Sunday, reportou ter encontrado centenas de gatos, de todos os tipos, atochados em jaulas de 4 metros.

Juntamente com foto da macabra mercadoria, publicaram outra com a do "gastrônomo" Yanwu Peng, apreciador e mercador do que chama de "especiaria", ostentando seu cartão de visita onde se pode distinguir claramente os dizeres "Fornecedor de gatos para hotéis e restaurantes finos".

O semanário, para não perder a viagem, e indignar ainda mais seus leitores (os britânicos são maníacos por bichos), pois isso vende, acresceram uma longa reportagem com o fulano em questão, que discorre com fluência fanática e imoral sobre a história de como o gato na China passou do colo de suas donas para a panela de cozinha.

É um conhecedor, um enciclopedista do irracional, um defensor de "gatocausto" (não quero fazer graça com assunto sério) que ainda não se deu conta do que anda, e com ele andam fazendo – o quê? –, um bilhão de chineses.

Gatos há e até em números maiores que esse. Mas quem dará o primeiro tiro em seu nome?

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