Imolações aumentam na Tunísia 1 ano após revolução

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Image caption Muitos dos que ateiam fogo no próprio corpo dizem estar decepcionados com a revolução

Um ano depois da queda do presidente Zine al-Abdine Ben Ali, o número de jovens tunisianos que ateiam fogo ao próprio corpo aumentou cinco vezes em todo o país.

Muitos deles admitem que estão tentando imitar Mohamed Bouazizi, o jovem que se auto-imolou em dezembro de 2010. Sua morte desencadeou a onda de protestos e choques entre manifestantes e a polícia que acabou levando à renúncia de Ben Ali, em 14 de janeiro de 2011.

Estes protestos influenciaram a Primavera Árabe, uma onda de manifestações contra governos em vários países do norte da África e Oriente Médio.

Hosni Mubarak abandonou a presidência do Egito no início de 2011 depois da onda de protestos em todo o país. Na Líbia, depois de meses de confrontos, o presidente Muamar Khadafi foi capturado e morto por rebeldes em outubro, depois de oito meses de guerra civil e uma operação da Otan no país.

Os protestos continuam em outros países como o Bahrein e, no caso mais grave, a Síria, onde mais de 5 mil pessoas, segundo a ONU, já morreram na repressão aos protestos que pedem a renúncia do presidente Bashar al-Assad.

No Iêmen, depois de muita pressão dos manifestantes antigoverno, o presidente Ali Abdullah Saleh concordou em deixar o poder até fevereiro, mas exigiu imunidade para ele e sua família.

Desempregados

Na Tunísia, pelo menos 130 pessoas atearam fogo ao próprio corpo nos últimos doze meses.

A maioria dos que apelam para este ato é de jovens, moradores de áreas rurais e pobres e que passaram apenas pelo ensino básico. Estão desempregados e, apesar de muitos esforços, têm pouca possibilidade de voltar ao mercado.

Wyre Davies, repórter da BBC na capital tunisiana, Túnis, afirma que o ato de atear fogo ao próprio corpo tem origem no desespero e, geralmente, levam à morte em 48 horas. Caso sobrevivam, estes homens e suas famílias terão uma vida de muito sofrimento.

Um dos jovens que ateou fogo ao próprio corpo é Hosni, que está internado no centro de tratamento de queimaduras em um hospital da capital, Túnis.

Em entrevista à BBC, ele contou que copiou o ato de Mohamed Bouazizi. Ao contrário de Bouazizi, Hosni não virou herói e se arrepende do que fez.

"Eu estava desempregado e desesperado. O país inteiro parecia estar em chamas, então, ateei fogo ao meu corpo também, mas me destruí, psicológica e fisicamente. E também destruí minha família", disse.

O chefe do Centro de Tratamento de Queimaduras do hospital em Túnis onde Hosni está internado, Amenallah Mesaadi levantou dados inéditos, aos quais a BBC teve acesso, que mostram um aumento de cinco vezes no número de pessoas que atearam fogo aos seus corpos na Tunísia.

"Este ato ganhou fama devido ao que Bouazizi fez, mas não resolve os problemas, apenas piora a situação para as vítimas e suas famílias", disse o médico.

Reclamações

Muitos dos jovens que ateiam fogo ao próprio corpo já reclamaram junto às autoridades sobre casos de corrupção e também devido ao desemprego. No entanto estas reclamações não foram ouvidas.

No mesmo hospital onde Hosni está internado estão também vários outros homens que fizeram o mesmo e agora estão sendo tratados de problemas no pulmão e ferimentos principalmente no peito.

Outro homem que chegou nos últimos dias ao hospital, é um pai de três filhos, de 40 anos, desempregado e decepcionado com a revolução.

Segundo Messaadi, o homem provavelmente vai sobreviver, mas agora deverá ter uma vida de muita dor física e psicológica.