Ivan Lessa: Borgen, o dinamarquês a seu alcance

Atualizado em  16 de janeiro, 2012 - 07:49 (Brasília) 09:49 GMT

Na minha longa temporada em casa, alheia à minha vontade, andei batendo recorde de teleaudiência.

Ir mexer nos discos é uma trabalheira. Os livros estão com uma letrinha cada vez menor e todos os enredos me parecem semelhantes, de nosso Machadinho ao Hemingwayzão deles.

Bufo, arrasto-me de um aposento (meu flat tem aposentos e não salas e quartos) para outro apoiando-me nas paredes e, vira e mexe, estou em posição televisionária.

Além da farta programação que meu fornecedor digital oferece, vou ainda mais longe e alugo, por quantia irrisória, três DVDs por semana.

Falo um pouco sozinho, mas em voz baixa para não assustar vizinhos ou a gata Smudge. Nada digo de interessante. Nenhum comentário tenho a fazer sobre o mundo que me mantém sitiado e alijado dos tristes trabalhos que já foram, até quase um ano atrás, mais ou menos normais.

Notei, de uns meses para cá, que, tal como os livros, tudo que a TV me mostra é a mesma coisa. Mesmas crises, mesmos políticos, mesmos crimes, mesmos atentados ao pudor.

De uma mesmice insuportável à minha sensibilidade possivelmente embrutecida pelas mazelas que me rondam como abelinhas em torno de flores ricas em mel (Sim, há que se botar panos quentes e tentar metáforas abusadas e tristes. Não se sabe por que, mas viver, seja lá como for, mesmo aos trancos e barrancos, é preciso. Navegar, não, conforme sabemos).

Mas vamos para diante do raio da TV. Sim, sim. Grandona, som surround, HD, só falta – e essa nunca virá, tenho meus limites – a 3D. Lá estão os mistérios do mundo passando e eu tornando-os ainda mais impenetráveis, graças aos únicos exercícios que faço.

A saber: assistir aos sucessos de audiência que um dos canais da BBC, o quarto deles, anda enfileirando. Mas só me interesso por um inexplicável emplacador de Ibope: o Forbrydelsen, dinamarquês de origem, que, traduzido primeiro para o inglês, virou The Killing (os americanos já filmaram e também já passaram aqui) e que em nosso idioma pátrio não é mais que nosso popular O Crime vulgar e ubíquo como suco de jabuticaba.

Foi um sucessão e os britânicos muito se espantaram. Vinte episódios de 1 hora de duração e com legendas.

Com legendas, por aqui, é sinônimo de "filme de arte". Com essa ninguém contava.

Como gosto do gênero, tentei acompanhar. Não entendi nem pata nem vinas. Muita gente, todos com nomes com aquele "O" atravessado por uma lança que lhe vai do ombro direito até a gordota cintura esquerda. Os críticos babaram elogios em cima. Eu apenas babei atordoamento.

No quarto ou quinto capítulo, tomei uma decisão que julgo inteligente. Tanto fiz e mexi que deixei o aparelho com a tela praticamente limpa de legendas, tal como deve ser num mundo igualmente deslegendado a não ser para os surdinhos (eu ainda não cheguei lá).

Dava para se ver apenas um tiquinho da parte superior das letras. Aí sim, me interessei. Vieram-me à mente as esplêndidas figuras de Umberto Eco e Marshall McLuhan incentivando-me e sussurrando aforismas de real grandeza.

Daí até o final da série foi uma beleza. Eu completei com minha imaginação, doentia como o resto do corpo, os acontecimentos jogando com eles como se fossem um desses videogames no qual a garotada tanto se empenha.

Nem foi preciso empregar a técnica de Hercule Poirot ou miss Jane Marple, ambas criações da (louvada seja) Dame Agatha Christie, de reunir todo elenco numa sala e ir deduzindo e explicando até sobrar um só culpado (alguém com aquele "O" de lança atravessado no corpo, certo?). Descobri meu assassino com menos da metade de legendas e recusei-me a discutir o assunto com quem quer que fosse.

Já levaram (mais 20 horas) a segunda série do Forbry... de O Crime, bolas, e agora, todo sábado, em dois capítulos de uma hora, no mesmo canal, BBC 4, lá está um thriller político que leva nome de Borgen, que pode parecer marca de sorvete, mas que, na realidade lá deles, é como nossos queridos dinamarqueses chamam a ilhota onde ficam a sede do Parlamento, o escritório do primeiro-ministro (ou primeira-ministra, no caso) e o Supremo Tribunal.

No Borgen (é chique para os cidadãos locais fazerem uma forcinha para pronunciarem o nome no original), aplico o mesmo método. Juro por todos os deuses nórdicos que é cem vezes (exageremos: mil vezes) mais interessante que a versão original.

Chato que de vez em quando eles lá, os excelentes atores, pronunciam palavras que conheço de outros carnavais: spin doctor, budget e outros que nem quero pensar. Meu dinamarquês é meu, eu que o inventei e ninguém o tira de mim.

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