Jovens de favelas do Rio desenvolvem 30 ações para suas comunidades

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Image caption Projeto Favela Orgânica, que busca reaproveitar alimentos na cozinha

Em seis favelas pacificadas no Rio, o burburinho de jovens pregando cartazes em postes, agitando moradores a participarem de eventos e anunciando suas próprias inaugurações têm gerado um movimento novo de novembro para cá.

Eles vêm dando o pontapé inicial para 30 projetos idealizados por eles próprios para suas comunidades, voltados para áreas como saúde, educação, reciclagem, arte, produção de eventos, internet e desenvolvimento profissional.

Os jovens empreendedores por trás das ideias têm de 15 a 29 anos e foram estimulados a buscar soluções para suas favelas pela Agência de Redes para a Juventude. O projeto foi iniciado em março do ano passado, quando 300 jovens foram selecionados para participar, dentre quase 900 que se inscreveram.

"Durante os últimos 15 anos, o jovem de favela foi considerado um jovem carente, sem informações, que precisava ser capacitado. A agência acredita no contrário. Esse jovem não é carente, ele é potente", diz Marcus Vinícius Faustini, idealizador do projeto.

"Queremos acabar com a ideia de que o jovem é aluno. Ele é um criador, e nós criamos ambientes criativos para que desenvolva suas ideias."

Nascido e criado em um conjunto habitacional de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, Faustini é diretor de teatro, produtor cultural e criador de ONGs que atuam nos subúrbios do Rio, além de autor do Guia Afetivo da Periferia.

Ele não gosta de definir a agência como uma incubadora; prefere tratá-la por "desencubadora". "É para botar (a ideia) para fora. Queremos criar um ambiente de mobilidade social. É uma quebra de paradigma. Geralmente, ninguém escuta esses jovens. A gente vem buscando um outro lugar para eles, um lugar de fala, e não só de escuta."

Bolsas e brainstormings

Ao longo do ano passado, os 300 participantes receberam patrocínio de R$ 100 mensais e participaram semanalmente de reuniões, estúdios de criação, palestras, conversas com acadêmicos e bancas de avaliação para desenvolver suas ideias.

As 30 mais fortes passaram para a fase final, receberam uma verba inicial de R$ 10 mil cada e começaram a ser colocadas em ação em novembro. Até o fim deste mês, todos os projetos terão sido inaugurados.

Os recursos iniciais são o suficiente para que funcionem por dois meses. Depois desse período, o desafio de cada grupo é conseguir atrair recursos e patrocínios para que o projeto se sustente.

Carolina Meireles dos Passos, de 26 anos, está investindo no Conexão Cultural, desenvolvido em conjunto com outros três jovens da Cidade de Deus (veja mais detalhes abaixo).

Ela é formada como auxiliar em saúde bucal, tinha emprego fixo mas não estava plenamente satisfeita com a atividade. Agora, diminuiu a carga do trabalho anterior para três vezes por semana e vem tocando a sua ideia de promover encontros culturais na favela da zona oeste carioca.

"A agência mudou totalmente a minha maneira de ver a minha comunidade e o meu trabalho. Estimula o jovem a pensar e a fazer uma coisa para a sua comunidade", diz Carolina.

"Isso nunca acontece em favela. As coisas chegam muito prontas para o jovem em favela, um curso é oferecido e pronto. Agora o jovem não está como receptor, está entregando o que acha que é interessante, o que acha que a comunidade precisa."

Com e sem UPPs

No primeiro ano, a agência funcionou em seis comunidades: Batan, Borel, Cidade de Deus, Chapéu Mangueira/Babilônia, Cantagalo/Pavão/Pavãozinho e Providência. Todas elas já integradas à política de pacificação do governo do Estado do Rio, com a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) para expulsar o tráfico armado.

Neste ano, porém, a agência vai expandir a sua rede e a nova turma a ser mobilizada, com 350 jovens, vai ser também de favelas que ainda não receberam UPPs.

"As UPPS são uma oportunidade muito importante. Fomos para elas primeiro porque não basta ter UPPs, é preciso criar oportunidades também. E agora vamos para outras porque é preciso formar uma grande teia que misture jovens, acadêmicos, ONGs", diz Faustini.

"A agência é uma experiência farol. Estamos inventando uma metodologia para aproveitar o potencial desses jovens e gerar novas lideranças de favelas. Só eles descobrem coisas que a gente nunca descobriria", diz.

Conheça abaixo alguns projetos que estão em andamento ou sendo lançados.

Conexão Cultural – Cidade de Deus (zona oeste)

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O projeto foi concebido por quatro jovens da Cidade de Deus (CDD) como um espaço para que artistas locais se apresentem à comunidade, em um evento mensal de mesmo nome.

"Temos uma quantidade muito grande de artistas na CDD, mas eles não tinham espaço para se apresentar na própria comunidade, só em outros lugares da cidade. Os moradores tinham que sair para vê-los, então a gente propôs criar um espaço aqui para que a comunidade possa conhecê-los", diz Carolina Meireles dos Passos, de 26 anos.

O levantamento feito pelo grupo ainda não deu conta de todo o território da CDD, mas já listou 80 músicos, fotógrafos, atores, cineastas etc. A segunda edição do evento acontece dia 20 deste mês, a partir das 17h, com uma exposição fotográfica, a exibição de um curta-metragem e esquetes teatrais, entre outros.

Providenciando a favor da vida – Morro da Providência (Centro)

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O projeto dá assistência a grávidas com idades entre 12 e 25 anos do Morro da Providência. Elas se encontram duas vezes por semana e participam de conversas e encontros sobre temas como sexualidade, amamentação, saúde do bebê e a autoestima da mãe. As meninas que participam do curso até o final ganham um enxoval para o bebê.

Idealizadora do projeto, Raquel da Gama Spinelli, de 26 anos, diz que há muitas grávidas nesta faixa etária na comunidade e que a ideia surgiu de uma experiência próxima.

"Ajudei uma amiga que passou por muitas dificuldades durante a gravidez. Ela era muito nova, a família não apoiou, ela não tinha recursos, o pai não assumiu... Eu fui ajudando."

Para elaborar o projeto, Raquel fez um mapeamento das jovens gestantes na comunidade e viu que muitas não terminaram os estudos, não trabalham e que a maioria quis engravidar, mas não se preparou para ter o filho. Os encontros incluem também oficinas de geração de renda para que as jovens possam desenvolver uma atividade em casa.

Boca de Lixeira – Cantagalo/ Pavão-Pavãozinho (zona sul)

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Joyce Pereira Pires, de 16 anos, se mudou do Ceará para o Rio há sete anos, e se surpreendeu com a quantidade de lixo deixado nas ruas, vielas e encostas quando chegou com a família no Pavãozinho, em Copacabana. Seu projeto busca conscientizar os moradores a fazerem a correta disposição do lixo.

Joyce vem organizando mutirões de limpeza aos sábados em áreas identificadas como críticas. Nos dias anteriores, ela visita moradores para explicar o projeto, chamá-los para participar e incentivá-los a levar seu lixo reciclado, que é repassado para grupos que fazem artesanato com o material. Os que participam dos mutirões concorrem a um microondas.

"Para tudo tem que ter uma troca. Se quero conscientizar as pessoas, elas querem ganhar alguma coisa", diz. Mas Joyce afirma que está sendo mais fácil mobilizar a nova geração do que os adultos. "Nos dois mutirões que fizemos até agora, só foram crianças e adolescentes", conta.

Da CDD Para o Mundo – Cidade de Deus (zona oeste)

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O projeto é uma reação à imagem de extrema violência que foi propagada pelo mundo no filme Cidade de Deus (CDD), de Fernando Meirelles, que se passa na comunidade da zona oeste do Rio. Aureliana Marques e Layla Duarte, ambas de 17 anos, idealizaram um roteiro para crianças sobre a história da comunidade.

O circuito vai percorrer a primeira igreja da comunidade, a primeira escola, a escola de samba, a praça principal, com uma pessoa para falar sobre a origem de cada local. Depois do passeio, as crianças terão uma oficina de arte para que desenhem e falem sobre o que viram. A largada será dada no próximo sábado, quando acontece, a partir das 9h, o primeiro passeio para um grupo de 15 crianças, de 5 a 12 anos.

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"A maioria das crianças não conhece a história da CDD. Queremos explicar para elas. Hoje em dia muitas crianças se envolvem com tráfico (de drogas), não querem saber de estudo. Queremos estimulá-las a conhecerem sua história, seu espaço, para que se envolvam mais com a comunidade, e não com coisas ruins", diz Aureliana, que no futuro quer abrir os passeios para pessoas de fora da favela.

Favela Orgânica – Chapéu Mangueira/ Babilônia (zona sul)

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Regina Tchelly se mudou de João Pessoa para o Rio há dez anos e fez um curso de cozinheira para obter um diploma. Mas nunca quis trabalhar em restaurante. Foi ser empregada doméstica e experimentar em sua própria cozinha. "Queria ser uma cozinheira diferente. Mexo com um pouco de tudo na culinária", diz a paraibana de 30 anos.

Das experiências que foi desenvolvendo para dar aproveitamento máximo aos alimentos – usando, por exemplo, casca de banana para fazer brigadeiro e casca de melancia para fazer risotos – nasceu a ideia do Favela Orgânica. Desde dezembro, o projeto vem promovendo oficinas onde 14 participantes do Chapéu Mangueira e Babilônia são estimulados a cozinhar evitando o desperdício. Aprendem a criar adubo a partir de sobras de alimentos (compostagem) e a fazer hortas nos espaços que tiverem disponíveis em casa.

"Eu via muito desperdício nas casas das pessoas. Queria ensiná-las que é possível fazer adubo orgânico e transformar cantinhos da casa em pequenas hortas, mesmo que seja usando caixinhas de sorvete para fazer jardineiras", diz Regina, que hoje ainda trabalha como doméstica, vende comidas congeladas e agora atua como professora na comunidade que adotou no Rio.

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