Lucas Mendes: Super Clint e Super Giselle

Giselle abriu aquele bocão lindo, disse bobagem, levou chumbo.

De todos os lados. Perdeu contra os jogadores dos dois times e as duas torcidas na final do futebol, o Super Bowl dos Giants e Patriots.

Nunca mereceu tanta atenção negativa embora tenha dito uma verdade científica: "Meu marido não pode passar a bola e receber a #*!+?#* bola".

A frase curtinha, reforçada por um palavrão, provocou também os editores dos tablóides que tomaram as dores dos insultados e não insultados. Giselle é uma "Ball braker", foi uma das manchetes. Não temos a expressão quebra bolas. No português mais aproximado ela seria um "pé no saco". Chata também é boa tradução.

Hoje a Super Modelo e o Super Bowl saíram das primeiras páginas e voltamos à órbita das primárias, mas o assunto que está em debate é o futebol político hollywoodiano criado pelo apolítico Clint Eastwood com seu comercial para a Chrysler. Com dois minutos sem mencionar sua marca nem seus carros foi umas das melhores promoções na história da publicidade e uma turbinada provocação política.

Clint Eastwood filmou, narrou e escreveu parte do texto do comercial que começa: "Estamos no intervalo. Os dois times estão nos vestiários discutindo como podem vencer este jogo.....".

Neste vocabulário o portugues, infelizmente, perde para o inglês. "Half Time in America", o título do comercial, é melhor do que "Meio Tempo" ou "Intervalo na América".

Enquanto Clint Eastwood narra e percorre as ruas de Detroit, aparecem imagens da cidade, de pessoas no trabalho, das montadoras. O texto é uma metáfora para um país que perdeu a liderança mas vai dar a volta por cima, como aconteceu com a indústria de automóveis que se perdeu no "fog, divisões, discórdia e acusações: mas a América sabe como ganhar de virada."

O intervalo do jogo é o momento da virada não só para os jogadores como para o povo, para a economia americana em geral e Detroit em particular. A Chrysler, que foi salva da falência pelo governo federal, lucrou US$ 183 milhões no ano passado, seu primeiro ano sem prejuízo desde 2005. Suas vendas no mundo cresceram 22%.

A G.M. teve um lucro de US$ 4,7 bilhoes em 2011, o primeiro desde 2004 e recuperou o primeiro lugar de vendas no mundo, seguida pela Volkswagen e Toyota. Os empregados receberam cheques de participação nos lucros de US$ 4.300, em média, o maior da história da empresa. Em 2009, também quase falida, fol salva pelo governo Obama.

Houve quem visse no comercial uma resposta democrata ao candidato republicano Mitt Romney que, na página de opinão do New York Times, em novembro de 2008, publicou a coluna "LET DETROIT GO BANKRUPT" (Deixe Detroit Falir) contra a salvação da GM e da Chrysler pelo governo Obama.

O próprio Clint Eastwood, numa entrevista em novembro passado, disse que ele também foi contra a intervenção do governo federal na indústria automobilística mas admitiu que está decepcionado com o Congresso e com o que tem visto na campanha republicana.

Clint Eastwood é uma das vacas mais sagradas deste país, dentro e fora de Hollywood. Democratas, republicanos, independentes e alienados gostam dele. Já foi eleito prefeito da cidade de Carmel pelo partido Republicano e disse que nunca votou num democrata. Não pertence a nenhum partido. Um dos poucos críticos que ousaram disparar contra ele foi Karl Rove que foi o principal assessor político de George W. Bush mas não teve coragem de disparar direto contra o homem que limpou o oeste e as ruas americanas. Karl Rove disse que Clint Eastwood foi enrolado pelo pelo patrocinador e que o texto, um "muito obrigado Obama, foi redigido pela Casa Branca".

O texto do "Intervalo na América" tem trechos e imagens semelhantes às de um comercial da campanha do presidente Reagan de 1984, "Amanhecer na América", inclusive com imagens de homens e mulheres a caminho do trabalho e a promessa de um novo dia num país mais orgulhoso, mais forte e melhor sob a liderança do presidente Reagan.

Não se sabe quanto a Chrysler pagou a Clint Eastwood. Ele doou o dinheiro para a caridade. A montadora pagou US$ 12,8 milhões a NBC pelos 2 minutos do comercial. No programa de maior audiência no ano foi um dos gols mais baratos e bem sucedidos da publicidade americana. Obama e Chrysler estão nos "hi-fives". Como você traduz "hi-five" para o português?

E pode apostar: o cachê da Giselle subiu. Vai ser a primeira bilionária brasileira. Viva o bocão.