Dois jornalistas ocidentais são mortos em bombardeio na Síria

Marie Colvin, em foto de 2010 Direito de imagem Getty
Image caption Colvin era uma veterana correspondente do jornal britânico 'Sunday Times'

Dois jornalistas ocidentais foram mortos nesta quarta-feira na cidade síria de Homs, atingidos por bombas que caíram num edifício da cidade, segundo relatos de opositores sírios e do governo francês.

Homs é o principal bastião de oposição ao governo sírio e um dos principais focos de confrontos entre as forças pró e contra o governo do presidente Bashar al-Assad; a cidade está há semanas sob bombardeio.

Ambos os jornalistas - Marie Colvin e Remi Ochlik - eram veteranos de coberturas de guerras, apesar de terem idades e experiências diferentes.

A norte-americana Colvin, de cerca de 50 anos, era uma premiada e respeitada correspondente do jornal britânico Sunday Times, para o qual trabalhava há duas décadas.

Na véspera de sua morte, ela havia sido entrevistada pela BBC em Homs e dissera ter visto cenas "repugnantes", como a de um bebê morto por estilhaços de bombas.

Colvin já havia reportado de zonas de conflito como Kosovo, Serra Leoa, Chechênia e diversos países árabes. Foi ferida em uma emboscada enquanto cobria os combates no Sri Lanka, em 2001, e perdeu a visão do olho direito.

"Fui estúpida (em continuar a cobrir guerras após a emboscada)?", escreveu ela no Sunday Times após o ataque. "Eu me sentiria estúpida se fosse reportar sobre a festa a que fui na noite passada."

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Image caption Ochlik (em foto de 2005) havia sido premiado por foto tirada durante a guerra na Líbia

Em 2010, em uma homenagem a jornalistas mortos em combate, ela havia defendido que os repórteres continuassem seu trabalho em zonas de guerra, apesar dos perigos.

"Nossa missão é reportar os horrores da guerra com precisão e sem preconceitos", afirmou na ocasião, com uma ressalva: "Sempre temos que nos perguntar se o nível de risco compensa a reportagem".

Prêmio na Líbia

O fotógrafo francês Remi Ochlik nasceu em 1983 em Lorraine. Começou sua carreira em 2004, cobrindo conflitos no Haiti. No ano seguinte, fundou uma agência fotográfica, a IP3 Press, em Paris.

Ochlik cobriu a guerra na República Democrática do Congo, em 2008, e regressou ao Haiti em 2010, para fotografar as eleições presidenciais e a epidemia de cólera.

No ano passado, cobriu a Primavera Árabe na Tunísia e no Egito e a guerra civil na Líbia. Foi premiado em 2012 no World Press Photo, justamente por uma imagem de um combatente rebelde líbio.

O chanceler britânico, William Hague, disse em comunicado nesta quarta-feira que a morte dos jornalistas "é um terrível lembrete do sofrimento do povo sírio - muitos deles estão morrendo diariamente".

"Marie e Remi morreram trazendo a nós a verdade sobre o que está acontecendo em Homs. Governos de todo o mundo têm a responsabilidade de agir (em resposta a) essas verdades e de redobrar nossos esforços para impedir a desprezível campanha de terror de Assad na Síria", declarou.

Ochlik e Colvin estavam, segundo relatos, abrigados em um centro de imprensa improvisado dentro de um edifício em Homs. O local foi atingido por um explosivo na manhã desta quarta, que resultou em dezenas de mortos.

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Image caption Homs vive intensos bombardeios atribuídos às forças do governo de Bashar al-Assad

Testemunhas dizem que, ao tentar escapar do local, diversas pessoas foram alvejadas por disparos de foguetes. Ao menos três outros correspondentes internacionais teriam sido feridos.

Jornalistas banidos

A maioria dos jornalistas ocidentais está proibida de reportar na Síria desde o início da revolta contra o governo de Assad, há um ano. Mas muitos têm arriscado e entrado escondidos no país, com a ajuda de ativistas locais, para chegar perto dos confrontos.

No mês passado, outro jornalista francês, Gilles Jacquier, foi morto em Homs.

Na últimas semanas, os enfrentamentos e bombardeios contínuos na cidade resultaram em centenas de mortes civis.

A Cruz Vermelha pediu que o governo e os rebeldes acordem um cessar-fogo diário, para permitir que suprimentos médicos cheguem aos mais necessitados e que os civis consigam escapar. Mas não há nenhum indicativo de acordo.

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