Para especialistas, modelo de shoppings de SP é ultrapassado

Atualizado em  28 de fevereiro, 2012 - 15:13 (Brasília) 18:13 GMT
Cidade Jardim Shops. Cortesia

Para especialistas, nos bons projetos, clientes conseguem ficar conectados ao exterior

Além do impacto na paisagem, a construção de grandes shoppings tem reflexos no trânsito, nos hábitos de consumo e na economia das cidades. Para especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o shopping estilo "caixote", fechado e sem conexão com o entorno, que predomina em São Paulo, é um modelo ultrapassado.

"A cidade precisa fluir e as pessoas também. O shopping fechado, emoldurado em si mesmo, é uma ideia que ficou no século 20", diz o arquiteto Valter Caldana, da Universidade Mackenzie.

"Projetos bem-vindos são aqueles que têm uso misto, com comércio, serviços, lazer, habitação, que seja conectado com a cidade, que se possa chegar a pé. Não dá para negar a cidade e fazer urbanismo da década de 1970", diz.

Para os especialistas consultados, bons projetos são aqueles com espaços abertos, nos quais o consumidor consiga ver o que se passa no exterior, se é dia ou noite, se chove ou faz sol.

Fernando Garrefa, autor do livro Shopping Centers - De Centro de Abastecimento a Produto de Consumo (ed. Senac) e professor na Universidade Federal de Uberlândia, faz um paralelo entre os shoppings tradicionais de São Paulo e os que são erguidos na China.

"Nas cidades chinesas há um grande investimento em transporte coletivo e, principalmente, em energias renováveis", diz Garrefa.

O arquiteto ressalta que as construções chinesas são pensadas para os pedestres, interligadas ao sistema de transporte e conectadas ao entorno.

Modelos estrangeiros

Para estes especialistas, no Brasil ainda predomina o tradicional modelo americano de shopping, feito para ser acessível por carro e descolado do resto do ambiente urbano.

Em alguns novos projetos, no entanto, já há pressão por prédios mais sustentáveis, semelhantes aos europeus.

Valter Caldana, no entanto, diz que há ainda grande resistência do setor privado em se adaptar a novos modelos.

"São Paulo não chega a estar na contramão de outras metrópoles mundiais, só estamos atrasados. Precisamos acelerar a consciência coletiva, inclusive para inibir projetos com modelo do século passado", diz.

Especialistas também criticam a facilidade com que empreendedores conseguem autorização para shoppings no Brasil.

Segundo Garrega, em Londres, novos centros comerciais levam até dez anos para serem aprovados pelo governo - enquanto em São Paulo tal processo dura de dois a três anos e é ainda menor no interior do Estado.

Além disso, a construção e a expansão de shoppings europeus estão atualmente atreladas a contrapartidas milionárias, como a ampliação de linhas de transporte.

Também é pedida compensação em outros pontos, como a adoção de materiais sustentáveis na construção e a obrigatoriedade de se reciclar praticamente todo o lixo.

Bolha imobiliária

A professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Heliana Vargas aponta outro risco de se basear no modelo americano.

"Temos agora no Brasil um crescimento de renda e os shoppings estão em alta. Mas e se isso retrocede? O comércio e os shoppings sofrem", diz.

Shopping Westfield London. WikimediaCommons

Shoppings europeus investem na integração com o entorno urbano e no acesso a pedestres

Antes mesmo do estouro da crise, em 2008, os Estados Unidos já vinham presenciando a falência de centenas de shoppings tradicionais - aqueles de grande porte, fechados e localizados em subúrbios.

Para Garrefa, por trás do caso americano esteve a formação de uma bolha imobiliária, cenário que ele afirma estar ocorrendo em cidades brasileiras.

"A prioridade desses empreendedores americanos era construir o prédio em si, valorizar seu entorno para lucrar com isso. Impactos viários e ambientais, por exemplo, eram negligenciados, e o crédito era muito fácil", diz.

Para ele, o fracasso americano serve como lição para o Brasil

"O Brasil passa por uma fase parecida, mas em uma escala menor, já que os investimentos são mais modestos", afirma.

Outra semelhança apontada por Garrefa é a facilidade de crédito no Brasil atualmente, muito maior que no passado.

"Shopping no Brasil ainda é um empreendimento imobiliário, e não comercial, e esse é um modelo ultrapassado."

*Colaborou Jéssica Fiorelli

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