Ivan Lessa: O cigarrinho antes e depois

Uma lenda urbana internacional diz que o melhor cigarro do mundo é aquele depois.

Depois do café da manhã, depois do ato sexual. Nada consta a respeito do cigarro antes. Disso ou daquilo.

Ninguém que eu conheça sabe direito, ou mesmo vagamente, porque começou a fumar.

O cigarro parece que sempre existiu, assim feito uma espécie de extensão da mão. Esse é o falado cigarrinho antes. Antes dele, o quê? Eu só posso falar de minha experiência pessoal.

Em o primeiro lugar, eu não fumo mais. Fumava entre 2 a 3 maços por dia até o dia 20 de novembro do ano 2000. Estava gripado. Gripe tira o gosto das coisas.

Acostumado, durante esse meio século, à tossinha que vinha garantida depois de passado o resfriado, ou gripe, juntamente com a falta de paladar. Não fumei durante os 2 ou 3 dias que se seguiram. O maço quase cheio tirando uma siesta, ou gozando um half-time, na gaveta da sala.

Chegada a hora de voltar ao velho vício, olhei para os cigarros, olhei para a janela, olhei para a gata Smudge. E disse para os meus botões na melhor maneira dos convalescentes abilolados, "Quer saber de uma coisa, eu não vou fumar mais." Disse e fiz.

Como, porque, de que forma, jamais entenderei. Parei e pronto.

Eu poderia mentir, como minto em tantas outras coisas, e dizer que foi um ato de tremenda força de vontade, que lutei como um desesperado, que foram necessários band-aids e gomas de mascar especiais para me dar uma ou duas mãozinha.

Não vou mentir. Nem tenho a menor idéia de porquê deixei de fumar. Acho que o corpo, mancomunado com os mistérios que rondam as mentes de todos, principalmente dos fumantes, disse, Basta! E bastado ficou. O fumo alheio não me incomoda. Que fumem, que se fumem. Nunca mais pensei nessas coisas nos quase 12 anos sem cigarro.

O primeiro cigarrinho, aquele de quando eu era guri, também não me lembro.

Sei, de forma geral -- pois todo garoto é forma geral --, que foi culpa do cinema. Com ênfase em Humphrey Bogart, Oscar de fumante na categoria masculina, e Bette Davis, na feminina.

O gosto acho que era secundário. O ritual era tudo. Ritual e embalagem. Fumei muito Sir, cigarro que ninguém ouviu falar, devido à sua embalagem em listas brancas e castanhas verticais e ainda tinha – Ô luxo! – ponta dourada. Filtro blicas. Só ponta. Era chiquérrimo.

E a aventura de tirar os cobres da bolsa da mãe para comprar o primeiro de uma longa série de isqueiros? Ronson, claro. Custava uma nota.

Ter que deixar tudo, como um viciado em ópio, a aparelhagem para o ritual proibido, cigarro e isqueiro, escondidos na caixa de fuzíveis do apartamento na avenida Atlântica. Só faltava uma roupa de superherói de filme em série para cumprir o tal ritual.

E assim parti para as minhas aventuras em busca de um supervilão. Lex Asma ou Silvana Câncer talvez. Acabei apenas, meio século depois, com os senhores Enfisema e seu assistente, o Dr. Infarto. Se valeu a pena? Claro que não. Mas que sabem os jovens do que vale ou não vale a pena?

Aqui no Reino Unido, o Centro de Pesquisas do Câncer acaba de informar, em minucioso estudo, que, apesar de todas as providências tomadas (campanhas publicitárias, proibições, aterrorizações e ameaças) 160 mil garotos entre 11 e 15 anos começam a fumar todos os anos, um número que bastaria para encher 5.200 salas de aula. Sem fumaça de cigarro, claro.

Perto de um milhão dos jovens tentaram seu primeiro cigarrinho antes dos 15 anos, Exatamente minha faixa preta etária de quando embarquei nessa.

Uma porta-voz da organização sugeriu que as companhias produtoras de cigarros introduzissem no mercado embalagens mais sóbrias, de forma a incentivar menos a petizada. Não bastam as fotos terríveis que certas marcas alardeiam?

Estão todos por fora. Ninguém mais fuma no cinema, nas telas ou nos auditórios. As caixas de fuzíveis andam cheias de segredos. A única coisa a fazer é esperar 50 anos. Se 50 anos forem dados à meninada.