Ivan Lessa: Zíngaros tropicalistas

Atualizado em  5 de março, 2012 - 05:07 (Brasília) 08:07 GMT

O Ministério Público Federal ganhou. Após ter ameaçado na terça-feira da semana passada o dicionário Houaiss com pesada multa e apreensão de toda a circulação do volume léxico em questão, dando ênfase porém à sua versão eletrônica, onde tudo é, para variar mais ou menos vago como o resto do país.

Neste fim de semana quem digitasse "cigano" na versão informatizada, disponível, no UOL, empresa controlada pela Folha, que edita o popular jornal, encontrava e ainda encontra o aviso de que a "palavra não foi encontrada".

Minha versão do Houaiss, gentil presente de um bom amigo que me mandou o CD há alguns anos, continuava, no entanto, cumprindo sua função e disponibilizando todas as acepções, positivas, neutras e pejorativas, do termo em questão, inclusive "esperto no negociar", "apegado ao dinheiro, agiota, sovina".

Na semana passada escrevi umas linhas a respeito, lembrando que "judeu", "judiaria" e "preto" e "crioulo" continuavam firmes no batente.

Fui a outros dicionários em versão eletrônica em busca de um cigano para pular o carnaval. Lá estava, direitinho, no Aulete (que fim levou o Caldas?) e no Aurélio, o verbete consignado com todas suas acepções, pouco importasse o que achassem e quisessem as procuradorias do Ministério Público Federal, que qualificam sua inclusão como "crime de racismo".

O verbete "pusilanimidade" também estava em seu devido lugar sob a letra P, para que tanto o portal quanto o diretor do Instituto Antonio Houaiss, Mauro Villar, soubessem exatamente o que estavam fazendo ou deixando de fazer.

Este último, segundo a Folha teria afirmado que "não partiu dele a ordem para a retirada", acrescentando, corretamente, o que não deixa de ser curioso, que "nunca teria suprimido as definições porque elas são espelhos que refletem ocorrências na língua".

Alguém precisa explicar ao Ministério Público Federal o que quer dizer "dicionário". Ao que parece, não ocorreu a ninguém por lá consultar o próprio Houaiss, em qualquer de suas versões.

Duas outras ocorrências, beirando a ocorrência policial, rondaram como almas penadas analfabetas nosso idioma que já foi de Camões e Carlos Drummond de Andrade.

Tem início nesta segunda-feira a 8ª edição da "São Paulo Restaurant Week", onde gastrônomos de todos os matizes poderão provar, não da culinária inglesa ou americana, conforme o nome sugere, mas do mundo inteiro.

Junta-se, pois, às "Fashion Weeks" que assombram o Brasil e aos "bullies" que o atormentam "bullying".

A outra ocorrência diz respeito aos inefáveis Caetano Veloso e Gilberto Gil (ambos 69, como gosta de registrar a Folha) que ameaçam com processo judicial (foi o que entendi) a construtora Odebrecht pelo que chamam, através da imprensa, de "afronta" a construção de um "resort" (não é assim em brasileiro?) de luxo à beira-mar da Bahia com o nome de "Tropicália", que, é de se julgar, os dois músicos consideram de sua propriedade exclusiva e apenas mais uns poucos.

A Odebrecht escolheu, como "slogan" do projeto, "onde o divino se encontra com o maravilhoso", que, aí sim, por ser citação de cançoneta Caetana, haveria margem para uma chegada aos tribunais e o habitual fuzuê com que sempre os indivíduos em questão contemplam a imprensa.

O conjunto residencial da Odebrecht oferece apartamentos de 3 a 4 quartos, bem em frente a uma deslumbrante praia baiana, por módicos preços a partir de R$ 800 mil reais. O que daria fácil para os dois trovadores comprarem uns dois ou três para uso próprio e da família.

A Odebrecht respondeu, algo timidamente, que a marca "Tropicália" já vem sendo usada por 76 negócios em São Paulo e 40 no Rio.

Tudo indica que Caê e Gil, como gostam de ser chamados à distância os filósofos cantantes, proibiriam, ou botariam a boca no trombone, se tivessem ativado e participado de outros movimentos músico-filosóficos tais como "Bossa Nova", "Existencialismo" (sem o qual não haveria Emilinha Borba cantando Chiquita Bacana), "Música Disco" ou "Discothèque", "Parnasianismo", "Futurismo", "Dadaísmo", "Positivismo" (citado, por extensão, em nossa bandeira) e por aí afora.

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