Ivan Lessa: Baixado e fora de linha

Atualizado em  14 de março, 2012 - 04:59 (Brasília) 07:59 GMT

Exatamente. Isso mesmo. Downloaded e off-line. Quer dizer, passou desta para melhor, bateu as botas, morreu, pegou o boné, bateu com as dez, se mandou.

Houve um tempo em que o dicionário Houaiss dava tudo issso e mais umas graçoilas.

Está a se dizer nas palavras que dão título a este texto – baixado e fora de linha – que, num sentido figurado, alguém deixou afinal de batucar sua vida nas muitas milhões de páginas da entre-redes (internet, pois não?).

Foi-se, subiu, pegou uma de revertere ad locum tuum, já que me lembrei de mais três expressões populares para deixar este vale de lágrimas (oquêi, quatro).

Como um piano de cauda abandonado num terreiro, o computador do camaradinha em questão fica lá sozinho à espera de algo ou alguém que vá e desvende seus segredos.

Quem manobrava o aparelho? De que redes sociais participava? Comprava muita coisa? Seu carteiro eletrônico batia muita perna? E o que tinha o falecido ou falecida a dizer?

Todo mundo informatizado vai um dia desses, hoje mesmo ou amanhã, morrer – e vou logo pedindo desculpas por ser brutalmente franco.

Todo mundo informatizado não pode negar que não parou um minutinho ao menos de googlar, ouvir musiquinha, procurar fotos de gatos jogando futebol para considerar o que vai acontecer com seu legado histórico cibernético. Em outras palavras, quem herdará suas vastas galerias, de súbito vazias, onde até há pouco senhas, dados e muita sacanagem faziam um tumulto dos diabos?

Estuda-se nos Estados Unidos a possibilidade de mudar as leis testamentárias a fim de incorporá-las à vida online das pessoas, que, como todos sabemos, a cada dia aumenta mais, ao contrário do que acontece no Sudão ou na Somália, no que diz respeito à expectativa do que, por aquelas bandas, sem ironia, também chamam de "vida".

Forçoso nestes tempos pensar num destino a ser dado ao patrimônio digital de Fulano ou Sicrano. É preciso, no entanto, muito cuidado.

Vem aí um Julian Assange ou hacker de publicação dúbia ou governo totalitário abelhudo e dá todos os seus e meus plás para gente desconhecida, a quem não tuitaríamos na net cumprimentaríamos na rua.

O véu, ou “nuvem”, como vem sendo chamada, será desfeito e acabaremos revelados, nus e sem qualquer mistério, onde começamos: na vala comum do lápis e papel, caderninho de notas ou, com boa vontade, máquina de escrever. Legislem-nos, pois, senhores, que isso é necessário e está mais que na hora.

Senão, vejamos: aqui na Grã-Bretanha, os cidadãos têm cerca de £ 2,3 bi em bens digitais (mais de 6 bi de reais), o que inclui 80% da população. 1 em 4 pessoas revelou em pesquisa recente que por volta do ano 2020 não mais imprimirá fotos, apenas as guardará em seus arquivos online. 3 em cada 4 pessoas admitiram que suas coleções de fotos e música digitais são, para elas, de grande valor sentimental. 21% dos britânicos calculam que armazenaram online mais de 200 libras, ou 560 reais, em música, fotos e vídeos. 3 em 10 dizem que pretendem, por volta também do ano 2020, encaixotar online tudo que curtem em matéria de música. E 1 em cada 10 pessoas deixará sua senha em testamento.

Como Noel Rosa, de quem por sinal já downloadei muita coisa na "caixa de fósqui" de meu box set, não quero choro nem vela, apenas que marretem meu hard drive e joguem o que sobrar no Canal da Mancha. Se é para informatizar, informatizo até o fim e debaixo da água.

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