Sul-africana questiona 'legado social' deixado por megaeventos esportivos

Anúncio da Copa em Brasília. Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Sul-africana disse que sistema de transportes herdado na África do Sul é insuficiente

Eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada devem ser encarados com mais realismo e menores expectativas. A opinião é da consultora sul-africana Liepollo Pheko, que ainda questiona a ideia do "legado social" deixado às cidades-sedes.

Diretora de uma consultoria de desenvolvimento social em Joanesburgo, Four Rivers, Liepollo é cética quanto à herança deixada pela Copa de 2010 em seu país.

Segundo ela, grande parte dos empregos gerados foram extintos após o Mundial e a infraestrutura de transporte construída para o evento hoje não atendem bem a população. Ela citou como exemplo o BRT, espécie de metrô sobre rodas que está sendo adotado no Rio.

"Estamos vendo uma repetição. As expectativas são muito altas, evento após evento. Mas temos sempre que olhar para os números por trás do entusiasmo", afirma Liepollo.

A consultora lembra que os altos investimentos na Olimpíada de Atenas, em 2004, podem ter contribuído para colocar a Grécia "no buraco em que está agora".

Voz dissonante

Liepollo participou de um debate sobre os benefícios sociais gerados por megaeventos esportivos, na 2a Conferência Internacional de Segurança em Esporte, em Doha, promovida pelo Centro Internacional de Segurança no Esporte (ICSS).

Ela estava ao lado do Secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, e de três debatedores que ressaltavam o potencial desses eventos para gerar benefícios sociais para a população.

A sul-africana foi uma voz dissonante ao questionar os benefícios gerados na África do Sul. Segundo ela, as altas cifras anunciadas como dinheiro gerado pela Copa de 2010 foram em grande parte consumidas na organização do evento.

"Deveríamos ter olhado mais para uma análise custo-benefício", afirma Liepollo, defendendo que as populações avaliem se querem gastar tantos tributos com megaeventos ou se preferem alocá-los de outras maneiras.

Ela defendeu que os países que se propõem a sediar tais eventos façam uma avaliação de impacto criteriosa para saber se de fato têm condições de levar o projeto adiante.

"Olhando para trás, talvez se a Grécia soubesse da situação em que estaria hoje, talvez preferisse adiar a realização do evento", argumentou.

Segurança no Rio

Liepollo não fez críticas ao evento em si, elogiando o clima na África do Sul durante a Copa do Mundo, quando as coisas ficaram "cor de rosa" e os problemas melhoraram, inclusive a segurança.

"Mas estamos mais preocupados com a segurança dos visitantes do que com a nossa própria?", questionou.

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, contestou a sul-africana e afirmou que os benefícios já estão sendo sentidos no Rio. "O legado não tem que começar depois, o legado tem que continuar antes", disse.

Ele apresentou brevemente à plateia internacional do evento o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, iniciado no Rio em 2008.

Através dos megaeventos 2014 e 2016, afirmou, o Rio estabeleceu uma política de segurança pública clara, algo que não existia.

O secretário afirmou que com as UPPs o Estado "retomou" áreas de favelas que estavam ligadas ao tráfico de drogas, e que a presença da polícia está possibilitando a entrada de serviços que vem reintegrando esses espaços à cidade.

Incisivo, o moderador do debate cobrou do secretário garantias sobre a continuidade do programa após a Olimpíada de 2016.

"Como o senhor vai garantir que essa mudança de longo prazo quando os holofotes não estiverem mais sob o Rio e a vontade política talvez não esteja mais lá", quis saber Tim Sebastian, ex-apresentador da BBC.

Beltrame afirmou que a continuidade está garantida porque a "sociedade já tomou para si" o projeto e não vai mais admitir voltar atrás; porque o estabelecimento do projeto virou lei; e porque o orçamento está pronto para a execução do projeto até a sua conclusão, em 2014.

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