Ataques reabrem debate sobre integração de imigrantes na França

Mohamed Merah em imagem de vídeo. | Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Mohamed Merah, suspeito de ataques, é francês de origem argelina

Os ataques que teriam sido cometidos pelo francês de origem argelina Mohamed Merah, suspeito de ter matado quatro pessoas em uma escola judaica e três militares no sudoeste da França, podem reacender no país os debates sobre falhas no processo de integração de descendentes de imigrantes, sobretudo árabes.

O perfil de Merah é muito semelhante ao de Khaled Kelkal, um dos principais autores da onda de ataques terroristas islâmicos na França em 1995, entre eles o da bomba na estação de metrô Saint-Michel, que matou oito pessoas e deixou 117 feridas.

Kelkal, argelino, mudou-se para Lyon, na França, ainda criança, e após abandonar os estudos começou a efetuar inúmeros roubos antes de se ligar a movimentos islâmicos radicais.

Com apenas 23 anos, Merah já tem uma longa ficha policial com mais de uma dezena de crimes, vários deles com o uso da violência e cometidos quando ele ainda era menor de idade.

Segundo seu advogado, Christian Etelin, o suspeito dos ataques já havia sido condenado por roubar, por exemplo, uma bolsa de uma senhora idosa em uma agência bancária.

Sua situação profissional é modesta e precária: ele fez um curso para trabalhar em uma oficina de conserto de carros, mas estaria desempregado há meses.

Ele receberia, segundo a imprensa francesa, a chamada "renda de solidariedade ativa", um benefício social que garante uma renda mínima.

Merah tentou entrar no Exército em 2008, mas sua candidatura foi recusada em razão de suas condenações na Justiça. Em 2010, ele tentou ingressar na Legião Estrangeira, mas o pedido também foi rejeitado.

Posições radicais

Como Kelkal, que em 1995 também atacou uma escola judaica, deixando 14 pessoas feridas, Merah teria encontrado pessoas ligadas a grupos extremistas islâmicos ao cumprir penas na prisão.

Seu irmão mais velho, Abdelkader Merah, 27 anos, que trabalha como pedreiro, também teria posições radicais. Investigadores tentam determinar se ele teria influenciado as ações do suspeito dos ataques.

A mãe de Merah criou sozinha os cinco filhos, que cresceram em uma área popular de Toulouse, em uma zona chamada "sensível", onde o abandono escolar e atos de delinquência ocorrem com mais frequência.

Nas periferias pobres da França, onde ocorreram as ondas de violência de 2005 e de 2007, o desemprego entre os jovens chega a atingir 40%

Estas áreas são habitadas principalmente por imigrantes de origem árabe e africana. Muitos jovens se dizem discriminados no mercado de trabalho. Eles também se dizem frustrados com a falta de perspectivas em relação ao futuro e se sentem vítimas de injustiças.

Na última onda de violência, em 2007, a forte participação de menores de idade nos violentos protestos surpreendeu autoridades francesas, como também o uso de armas de fogo contra policiais.

Comunidade muçulmana

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Image caption Merah disse que queria 'vingar crianças palestinas e presença francesa no Afeganistão' com ataque

A França possui a maior comunidade muçulmana da Europa, estimada em 10% da população. O passado colonial nos países do norte da África (Marrocos, Tunísia e Argélia) explica essa forte presença no país.

Embora nascidos na França e descendentes de segunda ou terceira geração, muitos desses jovens não se sentem realmente franceses e contestam a autoridade pública, se opondo a um sistema que eles julgam repressivo.

Alguns chegam a querer mudar de nome, trocando o nome francês por um árabe para se sentirem mais integrados entre os colegas do bairro.

Os casos de pessoas que passam da simples delinquência a atentados terroristas com motivações ideológicas, como Merah – que disse querer vingar as crianças palestinas e a presença militar francesa no Afeganistão – são bastante isolados.

Mas especialistas afirmam que os discursos do governo, como as recentes declarações do ministro do Interior, Claude Guéant, de que "há civilizações mais avançadas do que outras", fazendo uma referência direta ao islã, acabam favorecendo o surgimento de comportamentos mais radicais.

"Esse tipo de discurso do governo alimenta a raiva e cria um clima de suspeitas, incitando alguns grupos sociais a se isolarem", diz o cientista político Stéphane Montclaire, da Universidade Sorbonne.

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