Lucas Mendes: Jerry Lewis, 86, alopradíssimo

Atualizado em  22 de março, 2012 - 05:02 (Brasília) 08:02 GMT

Fui ao aniversario de 86 anos do Jerry Lewis e durante quase duas horas ri como nunca tinha rido nos filmes dele. Parecia um passo além do absurdo.

Fui como convidado com quase mil fãs pagantes no teatro da YMCA, da rua 92, um antro de artes e entretenimento.

Vimos primeiro uma edição curta do documentário Method of Madness of Jerry Lewis onde uma procissão de grandes atores e diretores colocam Lewis no pedestal dos gênios, mas naquela plateia ninguém precisava ser convencido da genialidade do comediante. Rolava um bom humor geral. Nas poucas cenas dos filmes no documentário a audiência explodia em aplausos espontâneos.

Jerry Lewis, depois de breve introdução do ator Richard Belzer, entrou no palco e sentou numa destas cadeiras de diretor.

Um pouco curvado mas sem outros sinais de decadência, está com uma rapidez mental e um senso de humor que causam inveja a sessentões como eu.

Ele sobreviveu a câncer de próstata, gravíssima fibrose pulmonar, um ataque cardíaco quase fatal, dores brutais na coluna provocadas por anos de quedas nos filmes e palcos e controlada, durante décadas, por 13 pílulas diárias de Percodan que criaram uma dependência. Ele se libertou das pílulas graças a um marca-passo eletrônico que funciona por controle remoto. Quando dói, ele clica, e bye bye dor.

O ator Richard Belzer que chama Jerry Lewis de "pai" conduziu uma conversa sobre os altos e baixos da carreira do comediante que começou aos 5 anos com os pais, um casal vaudeviliano.

O pai, imigrante judeu russo era mestre de cerimônias. A mãe, também imigrante russa, era a pianista. Na sua primeira entrada num palco Jerry Lewis, ao agradecer os aplausos, pisou, sem querer, numa lâmpada que explodiu. A plateia veio abaixo: "Eu vou fazer aquilo de novo", disse aos velhos.

Desde então, deu poucos passos em falso na carreira que disparou quando fez dupla com Dean Martin em 1946. Em um ano eles saíram de US$ 175 para US$ 30 mil por semana e os shows da dupla provocavam reações de histeria semelhantes às dos Beatles. Dean Martin tinha os encantos e a voz, Jerry Lewis, as macaquices.

Eu entrevistei Jerry Lewis em Times Square, em 1995, para a TV Cultura. Ele tinha 69 anos, um pouco mais do que eu tenho hoje e acabava de estrear na peça Damn Yankees. Fazia o papel do Diabo. A plateia vinha abaixo quando ele entrava em cena. Cantava e dancava. Foi o ano da morte de Dean Martin, seu parceiro de dez anos de shows, televisão, rádio, cabarés e 14 filmes.

O rompimento foi em 56. Deixou Lewis arrasado e nenhum dos dois deu explicações. Uma reconciliação temporária foi orquestrada por Frank Sinatra, amigo comum, mas só voltaram a ser amigos quando o filho de Dean Martin morreu num acidente de avião e o ex-parceiro trocou o suco de maçã pelo álcool. O fim foi rápido.

Ate então a embriaguês era uma imagem falsa e debochada que Dean Martin cultivava porque dava bons dividendos. Bebia pouco. O verdadeiro vício dele, diário, era o golfe. Jerry Lewis se lembra Dean Martin com culpa e profundo afeto. Dean Martin saiu porque cansou de ser escada, da falta de reconhecimento e porque não precisava do afeto do público, como Jerry Lewis.

Ambos tiveram carreiras bem sucedidas depois da separação mas a do comediante explodiu, como showman, ator, diretor, roteirista e inventor do video assist, um precursor do video tape que permitia ver a cena gravada instantaneamente. A partir daí sempre terminava seus filmes dentro dos prazos e orçamentos.

Ele conta, com grande prazer, a história do filme Bell Boy que, a pedido da Paramount, filmou em tempo recorde no hotel Fountainebleau, em Miami. A distribuidora recusou o filme porque era mudo. Jerry Lewis bancou os US$ 950 mil e o filme ja rendeu US$ 650 milhões.

Jerry se lembra com tristeza de um fracasso que só foi visto por uma dúzia de pessoas. Ou menos e não quer que seja visto. The Day the Clown Cried, de 1972, conta a história de um palhaço que leva crianças judias para a câmara de gás e, um dia, o palhaço entra na câmara e morre junto com elas. Jerry Lewis, um judeu, não teve o talento para colocar humor num campo de concentração como Roberto Benigni, em A Vida é Bela.

Ladies Man, Patsy, Nutty Professor, os filmes são tantos e cada um tem uma historia engracada ou dramatica. Jerry Lewis esta produzindo e dirigindo uma versao do Nutty Professor para a Broadway que deve estrear ainda este ano e assinou um contrato no começo do ano passado para co-produzir The Bell Boy, Cinderfellaw e The Family Jewels, um filme onde ele fez sete papéis diferentes.

Jerry Lewis queria fazer tudo em Hollywood, da direção a carregador de cenários mas os sindicatos não deixavam a menos que ele fosse membro. Ele pagou e tem carteirinhas de 14 sindicatos de Hollywood, outro recorde.

Mas e o humor da noite? A última hora foi na base do improviso, a especialidade dele. Mais de cem pessoas se enfileiraram nas duas alas do teatro para fazer perguntas. Jerry Lewis fez um alerta: "Por favor, não me digam que me adoram, que me amam desde a infância quando viam meus filmes com seus pais. Eu já ouvi isto milhares de vezes e, acreditem, eu acredito. Por favor, vamos ao ponto."

Na primeira pergunta, a mulher começou: "Nós adoramos você na minha casa..."

Jerry Lewis rodou os olhos. "Próxima pergunta", disse.

De mais de cem perguntas, ele teve pena de meia dúzia de fãs, entre eles um paraplégico que pediu um abraço. Outro fã, que contou uma boa história e pediu um perto de mão, teve o desejo satisfeito mas Jerry Lewis aproveitou para arrancar risadas com uma piada sobre o passado gay. Eu confesso minha falta de talento para transcrever o humor de Jerry Lewis. Gravei a noite mas sem as expressões e o ritmo dele, o humor perde a graça. A genialidade dele não esta no texto, não pode ser separada da pessoa. Jerry Lewis é Jerry Lewis.

Qual o segredo desta longevidade saudável e promissora que venceu tantas doenças? Uma gargalhada por dia vale dez anos de vida, ele garante.

Antes daquela noite não me lembro da minha última gargalhada. Uma tragédia.

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