Londres 2012: A fábrica de atletas da China

Atualizado em  25 de abril, 2012 - 05:21 (Brasília) 08:21 GMT
Atletas chinesas Wu Minxia e He Zi durante competição em Dubai no dia 16 de março

Wu Minxia e He Zi esperam conseguir a medalha de ouro nos Jogos de Londres

Qual o segredo do sucesso esportivo da China? Anfitrião dos últimos Jogos Olímpicos, em 2008, o país conseguiu a façanha de superar os Estados Unidos para terminar em primeiro no quadro de medalhas da competição, com 51 medalhas de ouro.

Menos de duas décadas antes, nos Jogos de Barcelona, em 1992, a China havia terminado em quarto lugar, com 16 medalhas de ouro.

A ascensão rápida tem origem em um centro de produção de atletas baseado em um conceito: o trabalho.

A BBC vem seguindo há um ano o regime de preparação de duas atletas, Wu Minxia e He Zi, da equipe de saltos ornamentais da China, um dos símbolos do fortalecimento esportivo do país.

Em fevereiro, na Copa do Mundo da modalidade disputada no Centro Aquático do Parque Olímpico de Londres, a equipe chinesa arrasou os demais competidores ao levar as oito medalhas de ouro em disputa.

Sem folga

O domingo é normalmente um dia dedicado ao descanso na China, mas não para as duas maiores atletas do salto ornamental no país. Enquanto outras pessoas aproveitam o dia para um almoço em família ou uma ida ao cinema, Wu Minxia e He Zi estão no ginásio, treinando.

As duas atletas esperam ganhar o ouro na Olimpíada em Londres, e isso significa não tirar mais folgas até o início dos Jogos.

Elas têm apenas meio dia livre por semana – nas tardes de domingo – que normalmente passam em seus apartamentos, dormindo, vendo TV ou escutando música.

Wu Minxia e He Zi com as medalhas de ouro na Copa do Mundo em Londres, em fevereiro

Equipe chinesa ganhou todas os ouros em disputa na Copa do Mundo em Londres, em fevereiro

As saltadoras fazem parte do grupo de elite de esportistas chineses que vivem em período integral dentro do sistema.

Eles comem, dormem e treinam nos locais de Pequim gerenciados pela Direção Geral Esportiva do Estado Chinês. Eles têm poucos amigos fora dali.

“Nós vivemos em um círculo pequeno, encontramos pessoas com histórias semelhantes e levamos vidas muito simples”, observa Wu Minxia, que já ganhou duas medalhas de ouro olímpicas.

“As pessoas que vivem do lado de fora, que têm que trabalhar, têm uma relação mais complicada com a sociedade”, afirma.

Saídas raras

As mergulhadoras têm permissão para deixar o complexo, que elas dividem com dezenas de atletas que ganharam medalhas de ouro na Olimpíada de Pequim.

Mas as saídas se limitam a ocasionais visitas ao supermercado localizado em frente ao complexo, alguma eventual ida a um restaurante ou a uma loja para comprar coisas essenciais.

He Zi tem 20 anos, Wu Minxia tem 26, mas nenhuma das duas tem namorado.

“Eu coloco todo meu coração e a concentração no treinamento. Não penso em muitas coisas além disso”, afirma He, originária da região autônoma de Guangxi.

He Zi compete durante Copa do Mundo em Londres

"Já tive momentos difíceis, mas nunca pensei seriamente em desistir. Ainda tenho um sonho, e isso me faz continuar"

He Zi

Parte do isolamento vem do regime rigoroso de treinamento dos saltadores, mas também parece ser incentivado pelas autoridades esportivas da China.

Os atletas são levados de ônibus pela curta distância entre o centro de treinamento e os dormitórios. Durante o percurso, o mundo exterior pode ser apenas vislumbrado pela janela.

Seus apartamentos, cada um dividido por vários outros atletas, são fechados para visitas de fora do complexo.

Os esportistas no sistema quase sempre fazem suas refeições juntos também, numa cantina comunal.

'Treinar, comer e dormir'

“A vida dos atletas consiste em três coisas: treinar, comer e dormir. Eles somente se movimentam de um a outro”, observa um funcionário do local.

Mas Wu e He admitem que pensam na vida do lado de fora.

“Venho treinando há anos e a fadiga vem crescendo. Preciso de um período de tempo somente para deixar meu cérebro pensar sobre o que devo fazer em seguida”, afirma Wu, originária de Xangai.

“Gostaria de levar minha família para viajar de férias”, diz He, que não pode voltar à sua cidade natal nem mesmo uma vez ao ano.

Mas o tempo para pensar no futuro é escasso. Neste momento, as duas saltadoras têm seus olhos firmemente voltados para Londres, onde devem competir juntas no salto sincronizado de 3 metros para mulheres.

“Já tive momentos difíceis, mas nunca pensei seriamente em desistir. Ainda tenho um sonho, e isso me faz continuar”, afirma.

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