Suspeito de corrupção, vice argentino faz Cristina Kirchner reviver 'pesadelo'

Cristina Kirchner e Amado Boudou. | Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Boudou foi escolhido pessoalmente por Cristina Kirchner como seu vice-presidente

O vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, envolvido em suspeitas de corrupção, é o segundo vice a gerar problemas para a presidente argentina Cristina Kirchner.

Boudou é acusado de tráfico de influência para tentar favorecer um amigo de infância na disputa pela impressão das cédulas de pesos argentinos.

Kirchner cumpre seu segundo mandato, que assumiu há quatro meses. Seu primeiro vice-presidente, o ex-senador Julio Cobos, votou contra o governo no Congresso e contribuiu para a pior crise do primeiro mandato (2007-2011).

Na última quarta-feira, por ordem da Justiça, policiais realizaram uma blitz em um apartamento de Boudou no bairro turístico de Puerto Madero, em Buenos Aires. A ação policial teria surpreendido o vice e setores do governo, segundo a imprensa local.

No dia seguinte, Boudou disse diante das câmeras de televisão – sem direito a perguntas – que era alvo de "máfias", e acusou os jornais Clarín, La Nación e Perfil, entre outros, de serem responsáveis por um "brutal ataque midiático" contra ele.

Ele também disse que estava decepcionado com o juiz do caso, Daniel Rafecas, de quem esperava "outra atitude".

Amado Boudou, de 49 anos, foi ministro da Economia e foi escolhido pela presidente para acompanhá-la como vice na sua chapa à reeleição presidencial.

"Por ter sido uma escolha da própria presidente (sem passar por uma convenção partidária), o que acontece com Boudou pode respingar na figura presidencial", disse o analista político Eduardo Van der Kooy, do Clarín, crítico do governo.

Boudou seria, segundo ele, um político que não agrada ao braço forte da presidente, seu filho Máximo, que teria influência crescente nas decisões do governo após a morte do pai, o ex-presidente Nestor Kirchner, em 2010.

Cobos

O analista político Sergio Berensztein, do Instituto Poliarquía Consultores, disse que o caso que envolve o atual vice-presidente preocupa porque o segundo governo de Cristina Kirchner ainda está no início.

"O segundo governo da presidente acabou de começar e já enfrentou o desastre com o trem (em Buenos Aires, que deixou cinquenta mortos em fevereiro) e agora a situação de Boudou", disse.

Em um artigo publicado na última sexta-feira, o editor do jornal El Cronista, Fernando González, afirmou que "nunca antes, desde a restauração da democracia em 1983, um vice-presidente em exercício tinha estado tão envolvido em uma denúncia judicial".

O primeiro vice de Cristina, Julio Cobos, votou contra o governo em meio a uma forte disputa entre a administração central e os produtores rurais que bloquearam as principais estradas do país contra um projeto do Executivo.

A partir daquele dia, em 2008, Cristina não falou mais com Cobos, segundo ele mesmo disse à imprensa. Em diferentes ocasiões os dois sequer se cumprimentavam e ele quase não foi às cerimônias de transmissão de cargo, em dezembro passado.

Cobos está afastado da política e numa das raras aparições publicas criticou seu sucessor, Boudou, "por falta de explicações à sociedade" sobre as denúncias de que teria cometido tráfico de influência. "Ele falou mas deixou várias perguntas sem respostas", afirmou.

Ao contrário do que ocorreu com Cobos, a presidente se mostrou em público, várias vezes, com Boudou. A última aparição pública dos dois aconteceu pouco antes da batida policial em Puerto Madero.

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