Falta de espaço e excesso de gente causam explosão de preços em cemitérios chineses

Cemitérios da China estão lotados (Foto: Márcio Tatagiba) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Metro quadrado em cemitério da China chega a custar 75 mil iuans (Foto: Márcio Tatagiba)

Os cemitérios da China estão vivendo uma explosão de preços de túmulos e, com o metro quadrado chegando a 75 mil iuans (mais de R$ 21 mil), alguns túmulos na capital, Pequim, chegam a custar mais que apartamentos.

Uma pesquisa feita pela revista China Business Weekly mostra que a bolha imobiliária, provocada pela rápida urbanização, mais do que duplicou o preço dos túmulos – negociados em torno de 20 mil iuans (quase R$ 6 mil) o metro quadrado em 2008. Em comparação, um apartamento na capital chinesa custa em média, 40 mil iuans o metro quadrado (R$ 11,5 mil) em zonas centrais (áreas mais próximas da Cidade Proibida).

"Nosso túmulo custou cerca de 150 mil iuans (mais de R$ 43 mil) no ano passado. Deve valer bem mais agora", diz Yang Xujing, que enterrou seu pai no cemitério de Babaoshan, no noroeste da capital chinesa, em 2011.

A especulação imobiliária causada pelo êxodo rural, somado ao aumento da renda e desenvolvimento do país, segue como um problema na China.

Especialistas avaliam que uma crise econômica chinesa semelhante à ocorrida nos Estados Unidos em 2008 é iminente – com os preços dos imóveis tendo subido 70% desde os anos 2000, conforme análise feita pela Barclays Capital em novembro do ano passado.

O governo chinês nega a existência da bolha, mas tenta conter a alta dos preços do metro quadrado.

"O valor das casas pode estar caindo, mas os funerais seguem muito caros. Até mesmo porque essa economia não leva em conta o melhor feng shui dentro do cemitério – que custa muito caro", avalia Yang, ao visitar o túmulo de seu pai durante o feriado de Qingming – o dia em que os chineses visitam os cemitérios, limpam os túmulos de seus antepassados e lhes oferecem bebida, cigarro, flores, comida e até réplicas de iPhones.

Costumes caros

Os túmulos não são o único problema da economia funerária. De acordo com a tradição chinesa, funerais são amostras de dedicação e piedade filial e, por isso, tendem a ser extravagantes.

Somente os serviços como transporte do corpo, velório e cremação – variam de mil a mais de 100 mil iuans, conforme pesquisa realizada pela revista China Economic Weekly. Os valores mudam de acordo com a qualidade e extravagância dos itens.

O velório pode ou não ter uma banda marcial, uma rajada de tiros de canhão, caravanas de carros importados para deslocar as famílias ao cemitério. E a sala onde ocorre a cerimônia pode ser grande o suficiente para a família imediata apenas – ou para uma lista de até mil convidados. Disso dependerá o aluguel – que varia de 100 iuans a mais de 1,5 mil iuans.

"Tudo é para honrar a vida do morto, mostrar o carinho e respeito que temos por ele", contou Yang Xujing. Primogênita, ela dividiu os custos com o irmão, agora o mais velho homem da família.

Depois de velados, os corpos são cremados. Com o novo aumento do diesel e da gasolina em março deste ano, a cremação atingiu os 800 iuans em Pequim. Em Xangai, onde o preço é tabelado pelo governo local, a taxa fica em 180 iuans. Somados os custos operacionais, o serviço chega a custar 440 iuans ao crematório – o prejuízo de 260 iuans é repassado através de outros serviços oferecidos.

Mais de 60% das 8,5 milhões de pessoas que morrem todos os anos na China são cremadas, de acordo com o Ministério dos Assuntos Civis.

Para quem não tem dinheiro, a solução é ou alugar um túmulo (por cerca de mil iuans anuais) ou aceitar o "pacote" funerário provido pelos cemitérios, subsidiado parcialmente pelo governo local. O valor do pacote depende da cidade, mas fica na média nacional de 2 mil iuans.

Alternativas verdes

Não é só a inflação que altera os preços no setor funerário da China, conceitos como preservação do meio ambiente e economia verde também podem alterar os costumes tradicionais.

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Image caption Oferendas são depositadas em túmulos durante o feriado do Qingming (Foto: Márcio Tatagiba)

Governos municipais apostam no "Memorial Virtual" como uma alternativa verde e barata à celebração tradicional do Qingming – o dia dos mortos.

A ideia é manter uma página na internet onde as pessoas possam honrar os mortos deixando posts, comentários ou oferecendo flores e bebidas ao falecido pelo website.

Essa é também uma alternativa para que as pessoas participem do Festival Qingming sem que precisem viajar até onde seus familiares estão enterrados, o que gera menos emissão de carbono. Segundo o Ministério de Assuntos Civis, 17,91 milhões de pessoas viajaram durante os três dias de feriado.

Em Pequim, o Departamento de Supervisão de Funerais, ligado ao Ministério de Assuntos Civis, criou em 2004 uma plataforma virtual para os 17 cemitérios existentes na cidade. Os serviços são oferecidos gratuitamente nos primeiros sete anos de assinatura.

"No início do projeto, os moradores da capital foram relutantes em aceitar a plataforma. Desde 2010 a situação vem mudando, e só naquele ano 40 mil pessoas assinaram o serviço", disse Huang Qiaoquan, chefe de pesquisa do Departamento, à agência oficial de notícias Xinhua.

Cidades como Tianjian, ao sul de Pequim, promovem no túmulo biodegradável. O cemitério de Yong'an tem 400 metros quadrados e um lago de 200 metros de área. Mais de mil pessoas já foram enterradas no local em urnas que se dissolvem em um período de três a seis meses.

Outro costume que está para cair em desuso é a queima de papéis, usados também como forma de honrar os mortos. Realizada nas ruas, a queima de mil toneladas de papéis (dinheiro e cheques falsos, criados especialmente para a ocasião) custa anualmente cerca de 10 bilhões de iuans aos chineses, segundo a Associação dos Consumidores da China.

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