Síria amanhece calma em primeiro dia de trégua

Cessar-fogo na Síria | Foto: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Opositor sírio mostra prédios supostamente bombardeados por tropas do regime de Assad

Em meio às crescentes pressões da comunidade internacional e os esforços do enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, o governo do presidente Bashar al-Assad, colocou em prática um cessar-fogo, com a aparente calma na manhã desta quinta-feira em diversos pontos do país.

Segundo o correspondente da BBC em Beirute, Jim Muir, apesar da relativa calma, mais cedo houve tiroteios isolados na cidade de Idlib e em alguns subúrbios da capital, Damasco, mas não há registros de mortes até o momento.

Caso a trégua entre as forças do regime e os combatentes opositores seja mantida, os próximos passos do plano de paz incluiriam a retirada das tropas do governo, e o aparato de guerra, como os tanques e armamentos pesados.

De acordo com as determinações do acordo de paz mediado pela ONU e a Liga Árabe, no entanto, estas medidas já deveriam ter sido completadas.

Mas o fim dos conflitos seria só o primeiro de muitos passos necessários até que a volátil situação no país, após 13 meses de intensos confrontos possa ser considerada estável.

Novos protestos

O principal grupo de oposição, o Conselho Nacional Sírio (CNS), demonstra ceticismo com relação à seriedade do governo quanto ao plano de paz, e diz que mesmo que a trégua perdure uma nova onda de protestos está marcada logo após a confirmação do cessar-fogo.

A intenção seria botar à prova a determinação do regime em não usar mais armamentos contra a população civil. O principal objetivo dos opositores continua sendo a renúncia de Assad, embora o plano de paz não inclua sua saída do poder e aliados, como o Irã, tenham apoiado a iniciativa da ONU desde que o líder possa permanecer no comando do país.

"Fazemos um chamado às pessoas para que protestem e se expressem. O direito de manifestação é um dos pontos principais do plano", disse Burhan Ghalioun, líder do CNS.

Tanto o regime quanto o CNS disseram que vão respeitar o cessar-fogo mas se reservaram o direito de retaliar caso sejam atacados.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Síria, Jihad Makdissi, disse à BBC que o governo estava "totalmente comprometido" com o encerramento das operações militares "desde que não haja mais violência armada contra o Estado".

"Se essas pessoas na oposição querem o bem integral do próprio país delas, terão que vir à mesa de negociação e diálogo".

Ceticismo

A repercussão dos desdobramentos na Síria junto à comunidade internacional ainda é dominada pelo ceticismo. O presidente dos EUA, Barack Obama, e a chanceler (premiê) da Alemanha, Angela Merkel, falaram na quarta-feira ao telefone e indicaram que Assad não cumpre o plano de paz em sua totalidade.

Já para o chanceler britânico, William Hague, a resposta a um eventual fracasso do cessar-fogo deve incluir um novo esforço para aprovar uma resolução mais dura no Conselho de Segurança da ONU, além de intensificar o apoio à oposição síria.

China e Rússia, que no passado vetaram resoluções condenando o regime, disseram que a oposição precisa respeitar o cessar-fogo, tanto quanto as forças de Assad.

Obama se encontrou na quarta-feira com o ministro da Defesa da Arábia Saudita, que argumenta pela entrega de armas aos opositores, e a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deve se encontrar com seu colega russo, Sergei Lavrov, para discutir a crise síria.

Desde o início dos protestos antigoverno, em março de 2011, o regime sírio vem lançando uma ofensiva contra opositores que, segundo a ONU, já deixou mais de 9 mil mortos no país.

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Image caption Kofi Annan (esq.) encontrou-se com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, na quarta-feira

Já o governo sírio divulgou em fevereiro sua própria estimativa de vítimas: 3.838, das quais 2.493 eram civis e 1.345 membros das forças de segurança.

O enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe, Kofi Annan, deve se reporter ao Conselho de Segurança da ONU nesta quinta-feira.

Entenda o conflito:

Como os protestos começaram?

A rebelião começou na cidade de Daraa (sul do país), quando 14 crianças foram presas e supostamente torturadas após escrever em um muro um slogan relacionado às revoltas que ocorriam na Tunísia e no Egito.

Manifestações que pediam mais democracia - porém não a queda de Assad - foram reprimidas pelas tropas sírias, mas os protestos não só continuaram como se espalharam para todo o país.

O que os opositores querem?

Os protestos começaram pedindo mais democracia e liberdades individuais. Porém, quando as forças de segurança abriram fogo contra manifestantes desarmados, a oposição passou a exigir a queda de Assad.

O presidente se recusou a renunciar, mas fez concessões para tentar aplacar os manifestantes. Entre elas estão o fim do estado de emergência, que durou 48 anos, e uma nova constituição, que prevê a realização de eleições multipartidárias.

Há uma oposição organizada?

Depois que as manifestações se espalharam por todo o país, opositores e partidos políticos clandestinos formaram a frente antigoverno Conselho Nacional Sírio (CNS), de maioria sunita e apoiada pela Irmandade Muçulmana e que opera fora da Síria.

Um segundo grupo, o Comitê de Coordenação Nacional, que age de dentro do país, foi formado por opositores que temem a orientação islâmica do CNS.

Já a oposição armada ao regime é composta por militares desertores que se organizaram no Exército Livre da Síria, que coordena ataques contra as forças de segurança do regime a partir da Turquia.

O que a comunidade internacional está fazendo?

A Liga Árabe inicialmente se manteve em silêncio sobre a crise, mas em novembro de 2011 impôs sanções econômicas à Síria após o país não permitir a entrada de observadores no país. Os observadores foram autorizados um mês depois, mas não conseguiram frear a violência.

Duas tentativas da comunidade internacional de aprovar resoluções contra a Síria no Conselho de Segurança da ONU foram vetadas pela Rússia, que tem fortes laços econômicos e militares com o regime de Assad.

No último mês de março, a Liga Árabe e a ONU nomearam o ex-secretário geral das Nações Unidas Kofi Annan como enviado para negociar um cessar-fogo entre o governo e os rebeldes.

É um conflito sectário?

O regime de Assad concentrou poder econômico, político e militar nas mãos da comunidade alauíta (10% da população). A maioria sunita (74%) se viu excluída e passou a acusar o governo de corrupção e nepotismo.

Os protestos antiregime mais intensos vêm ocorrendo sistematicamente em cidades e áreas totalmente sunitas, onde praticamente não há alauítas ou cristãos.

Quais foram as perdas econômicas na Síria?

Mesmo antes da revolta, os sírios vinham enfrentando décadas de desemprego e aumento dos preços de alimentos. Sanções da Liga Árabe, da União Europeia e dos EUA prejudicaram os setores de agricultura e de negócios.

O Fundo Monetário Internacional afirmou que a economia da Síria retraiu 2% em 2011 e o valor da moeda local caiu 60% em relação ao dólar. A inflação também aumenta rápido (11% em março), e o desemprego é estimado em 20%.

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